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|va_001|
Manuscritos das Mãos Inábeis
Editor do Texto-fonte: R. Marquilhas
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I
ANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 290, Cadernos do Promotor, fls. 230r-231v, s. l., [1612]. Quadras anónimas, arquivadas pelo promotor entre papéis de 1612. Não é possível localizar sequer a residência do autor do texto por este não estar acompanhado de qualquer carta de remessa redigida por um comissário ou por um familiar do Santo Ofício. As quadras e o sobrescrito ocupam as faces exteriores de uma folha inteira de papel dobrada.
Original

| 230r |

# o castigo pa. os maoes
2
he liCito E eu o aprouo
mas tambem senhor repro/uo/
4
pera os bõns auer pãos
{DEClar}
6
# declarome os da nacam
qe. uiuem e morem na fe
8
Desë daruore De iase
itas da reDenCam
10
# POr que rezam não /terão/
Entre os bõns bõm lugar
12
E porq. lhe ão de negar
ser de ilustre geracam
14
# pois he rezam que não e/rra/
aparentando{.} se deus
16
na tera com os iudeus
serem os milhores da te/rra/

| 231v |

DE um co
2
RioSo

Edição

| 230r-231v |

O castigo pera os maus é lícito e eu o aprovo mas também Senhor reprovo pera os bons haver paus Declaram-me os da nação que vivem e morrem na fé descem d'árvore de Jasé itas da redenção Por que razão não terão entre os bons bom lugar e por que lhe hão-de negar ser de ilustre geração Pois é razão que não erra aparentando-se Deus na terra com os judeus serem os milhores da terra De um curioso


II
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 209, Cadernos do Promotor, fls. 194r-195v, (Portel], 1615. Carta de denúncia, possivelmente escrita por um autor anónimo, ou então por Brás Fernandes, não sendo claro se esse nome se refere a uma testemunha ou ao autor da carta. A cartaaponta delatos e testemunhas residentes em Portel. Ocupa as duas primeiras faces de uma folha inteira de papel dobrada.
Original

| 194r |

dominguas do ho Cazada Cõ bertollameu
2
frzi. tindero dise que elle tinha Cõta Cõ ella
pello terazeiro guabandose elle disto a pallo
4
jorge sapateiro desta uilla e a maix pesoas
(*)
6
dizia mais quella auia de uiuer na sua lli
e se não auia de fazer furar por hü anell
8
e Cospiallhe no rosto e miiaua no llume e Cos
piallhe no rosto e faziallhe outeras Couzas
10
moiitas de mão Ceristam, e o seu Comoniquar he
(.) Cõ iudeuos
(-)

12
tas. Caterina lluix e seu marido
(-)


(-)

14
Caterina Caera e seu marido manoell
piz. (.)
16

(-)

# manoell da uinha Caseriro desta uilla
18
homë esteraguado de iuramentos e toda
a uida amansebado dise diante de be
20
rtollameu alluers parllauars Cõntera
a fe se o uisem teratar Cõ dioguo da
22
uinha saramenho (.)

(-)

24
# hü omë de nasão dise diante de t(.)s.
que daua a/o/ diabo a seara e que se não

| 194v |

fora não sei por qu[?] quelle auia de por
2
foguo e mais pallauars e foi fama nesta
uilla que elle se queria emforquar
4
tas. dominguos piz. # e manoell piz.
# e manoell frz. uizinho do biCho
6
# e guaspar allueres llabaredas
//bars. fiz.//

Edição

| 194r-v |

Domingas do Ó casada com Bertolameu Fernandes tendeiro disse que ele tinha conta com ela pelo traseiro gabando-se ele disto a Palo Jorge sapateiro desta vila e a mais pessoas Dizia mais que ela havia de viver na sua lei e se não havia de furar por um anel e cuspia-lhe no rosto e mijava no lume e cuspia-lhe no rosto e fazia-lhe outras cousas muitas de mau cristão, e o seu comunicar é com judeus Testemunhas Caterina Luís e seu marido Caterina Caeira e seu marido Manuel Pires Manuel da Vinha [caseiro] desta vila homem estragado de juramentos e toda a vida amancebado disse diante de Bertolameu Álveres palavras contra a fé se o vissem tratar com Diogo da Vinha Saramenho Um homem de nação disse diante de testemunhas que dava ao Diabo a seara e que se não fora não sei por [quê] que ele havia de pôr fogo e mais palavras e foi fama nesta vila que ele se queria enforcar Testemunhas Domingos Pires e Manuel Fernandes vizinho do Bicho e Gaspar Álveres Labaredas Brás Fernandes


III
ANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 296, Cadernos do Promotor, fl. 670r-671v, Ponte de Lima, 1616. Carta oficial, escrita por Manuel Fernandes de Magalhães, avaliador dos bens confiscados e familiar do Santo Ofício em Ponte de Lima, que acompanha uma denúncia da autoria de um padre de São Miguel da Facha. Ocupa a primeira face de uma folha inteira de papel dobrada.
Original

| 670r |

aos des de nouenbro deste ano de seissentos
2
e dezaseis anos me deu hüa sardote pesoa por
min r/e/ conhesida hesa carta que cõ hesta uai
4
en que me requra a mandase a uosas merseas
eu como aualiador dos bis confisqados
6
aseiteia por ao prezente mão estarë fami
liar nenhüa na tera e amtreguei a do
8
minguos andrel por me pareser pesaa
de confiansa auendo de se fazer algüa
10
deligensia nisto ou noutra couza falrei
como uosas merseas me mandarë cü o segredo
12
nesario conforme a obriguas{.}o que temos
oie dezaseis de outubro de seissentos {.}
14
e dezaseis anos manoel frz. de magu {lh}
lhis
(-)

Edição

| 670r |

Aos dez de novembro deste ano de seiscentos e dezasseis anos me deu uma [sacerdote] pessoa por mim reconhecida essa carta que com esta vai em que me [requeria] a mandasse a vossas mercês eu como avaliador dos bens confiscados aceitei-a por ao presente não estarem familiar nenhum na terra e entreguei a Domingos Andrel por me parecer pessoa de confiança havendo de se fazer alguma diligência nisto ou noutra cousa falrei como vossas mercês me mandarem com o segredo necessário conforme a obrigação que temos hoje dezasseis de outubro de seiscentos e dezasseis anos Manuel Fernandes de Magalhães


IV
ANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 285, Cadernos do Promotor, fls. 250r-251v, Semide - Miranda do Corvo, (1617-1620]. Carta de denúncia não datada, arquivada entre documentos de 1617 e 1620. O autor material da carta, apesar de não assumido, parece ser um padre a quem Antónia Leal, mulher de um sapateiro de Semide, transmite uma delação. A carta ocupa as três primeiras faces de uma folha inteira de papel dobrada.
Original

| 250r |

pera uerem os snors. imquizedores
2

(-)

eu sou hüa molher cazada neste lugar de semide
4
com hü homem capateiro q. se chama andre marques
he ha dous ou tre mezes que temos em caza hua minha
6
irmão com seu marido ho /qual/ não sabemos donde he nem
se he gudeu nem se he truquo porq. diz q. os trusquos q. dizem
8
q. a snar. q. não pari sem uarão e he ho arenegado q. tal
diz deue de saber muito dela
(-)

10
este homem chamamlhe ho arenegado no fundam
onde esteue cazado com outra molhe cristam noua e gauace
12
q. fez la feitos q. ho não queimaremlhe roubaran a gustixa
e anda por cà escumugado disto mesmo se gaua ele
14
he homem q. arenega de deus e de seus sanctos e arenega
dos osos dos sanctos dos aterez [?] gura polas tripas de deus
16
gura polas chagas do diabo e emcomedase a elas q. lhe
ualham os seus trabalhos diz q. se deus o matar de fome q.
18
ma bocado a deus de comer dele e q. ha dacabar da
renegar dix [?] q. a augua q. he maldita e q. os malditos
20
uam pidila a deus do seu di quanto hade dizer es
peraime em pratiqua diz q. lhe esperem ate uinda de
22
cristo nisto mostra ser gudeu q. não {crcer} cre q. he
uindo ho mundo diz q. deuos q. não pode perdoar peca
24
dos diz q. deus q. não pode remediar trabalhos diz
q. hüa pecadora q. se não pode saluar nem deus a pode
26
saluar diz q. os {.} pecados garandes q. se não amde
comfecar senão porse os peis do comfecor e por os olhos {.}
28
no seu e q. logo fiquam perdoados diz q. não tem q. ir faz{e}r
a igreia nem tem q. ir la uer diz q. quer mal os qrelegos
30
e as cousas da igria diz por esquarneo nouuada seia a ca
ralhinha de {.} cristo diz quando diz sua molher os poderes
32
de deus nos ualham res/ponde/ {pomde} os foderes de deus
nos ualham

| 250v |

diz q. dezeia de dezonrar hüa filha dum crelego pelo
2
mal q. lhe quer e quando não puder q. ha de ue[.] se
pode acolh[???] po propio crelego e q. com ele ha de dor
4
mir e e desomRalo pelos a Pater e apouquar he
homem q. migou na natureza da sua mula dizendo
6
q. a mula q. estaua com dezeios de fazer tal couza
e q. o conhicia a a mula e diz q. não he bautizado nen
8
he cristam q. pera o ser q. ho amde tornar a bautizar
diz a mulher q. lhe beiie sua natureza e q. compriRa [?]
10
com ela na boca e por detras diz q. dorme com a mulher
por não dormir com hua bura diz q. os sanc{n} tos q. sam
12
abamtasmas e antam tron[.] a dizer q. o dizem os
trusquos porq. se teme dos bõis cristãis q. lhe uam
14
ha mão diz co cazamento q. se não fez per bom titu
lo nem pera acrecemtamemto do gerunumano se
16
não pera uelhaquear sem auer fruto de bemsam
e se lho deus da q. ho hade matar diz q. sabe quem dor
18
mim e desomrou hua minina de tres anos diz q. em
algüas couzas pode o diabo mais q.deus não quer
20
q. sua molher ua a igreia nem reze dizlhe q. lhe não
quer uer as comtas na mão pormeteu a sua molher
22
de a matar se ela cofecaua hü {...}
mortal e ela como boa cristam e filha de [.]om
24
uaram e de boa cociencia se lhe sair de seu mando
so pelo comfesar
(-)

26

(-)

e eu amtonia leal ando esperado pola boa ora
28
com as ilhargas cheas por iso não poso irme aquzar
a esa sancta imquisisam e sou molher q. não poso ir a pe
30
nen a bariga me deixa

| 251r |

por iso busquei este padre pera acim por minha (~)comsiencia
2
e desemcareg/uar/ minha alma ate poder ir a esa {sancta}
caza e se morer ja fiquo desemcaregada sobre a com
4
siencia deste comfesor

(-)

Edição

| 250r-v |

Pera verem os senhores inquisidores
Eu sou uma mulher casada neste lugar de Semide com um homem sapateiro que se chama André Marques e há dous ou três meses que temos em casa uma minha irmão com seu marido o qual não sabemos donde é nem se é judeu nem se é turco porque diz que os turcos que dizem que a Senhora que não pariu sem varão e é o arrenegado que tal diz deve saber muito bem dela
Este homem chamam-lhe o arrenegado no Fundão onde esteve casado com outra mulher cristã-nova e gaba-se que fez lá feitos que o não queimarem-lhe roubaram a justiça e anda por cá excomungado disto mesmo se gaba ele é homem que arrenega dos ossos dos santos dos [altares] jura polas tripas de Deus jura polas chagas do Diabo e encomenda-se a elas que lhe valham os seus trabalhos diz que se Deus o matar de fome que má bocado há Deus de comer dele e que há-de acabar de arrenegar diz que a auga que é maldita e que os malditos vão pidi-la a Deus do céu de quanto há-de dizer esperai-me em prática diz que lhe esperem até vinda de Cristo nisto mostra ser judeu que não crê que é vindo ò mundo diz que Deus que não pode perdoar pecados diz que Deus que não pode remediar trabalhos diz que uma pecadora que se não pode salvar nem Deus a pode salvar diz que os pecados grandes que se não hão-de confessar senão pôr-se òs pés do confessor e pôr os olhos no céu e que logo ficam perdoados diz que não tem que ir fazer à igreja nem tem que ir lá ver diz que quer mal òs crelgos e às cousas da igreja diz por escárnio [louvada] seja a caralhinha de Cristo diz quando diz sua mulher os poderes de Deus nos valham responde os foderes de Deus nos valham diz que deseja de desonrar uma filha dum crelgo pelo mal que lhe quer e quando não puder que há-de ver se pode [acolher o] própio crelgo e que com ele há-de dormir e desonrá-lo pelos a Pater e apoucar é homem que mijou na natureza da sua mula dizendo que a mula que estava com desejos de fazer tal cousa e que o conhecia a mula e diz que não é bautizado nem é cristão que pera o ser que o hão-de tornar a bautizar diz à mulher que lhe beije sua natureza e que comprirá com ela na boca e por detrás diz que dorme com a mulher por não dormir com uma burra diz que os santos que são abantesmas e antão torna a dizer que o dizem os turcos porque se teme dos bons cristãos que lhe vão à mão diz co casamento que se não fez per bom título nem pera acrescentamento do género humano senão pera velhaquear sem haver fruto de bênção e se lho Deus dá que o há-de matar diz que sabe quem [dormiu] e desonrou uma menina de três anos diz que em algumas cousas pode o Diabo mais que Deus não quer que sua mulher vá à igreja nem reze diz-lhe que lhe não quer ver as contas na mão prometeu a sua mulher de a matar se ela confessava um [pecado] mortal e ela como boa cristã e filha de bom varão e de boa consciência se lhe sair de seu mando só pelo confessar
E eu Antónia Leal ando esperando pola boa hora com as ilhargas cheias por isso não posso ir-me acusar a essa santa inquisição e sou mulher que não posso ir a pé nem a barriga me deixa por isso busquei este padre pera assim pôr minha consciência e desencarregar minha alma até poder ir a essa santa casa e se morrer já fico desencarregda sobre a consciência deste confessor


V
ANTT, Inquisição de Coimbra, maço 25, nº 45, fl. 25r-v, Vilar, termo de Fonte Arcada, bispado de Lamego, 1621. Rol autógrafo dos livros de Baltazar Rodrigues, redigido em cumprimento de edital mandado publicar em 1620 pelos Inquisidores de Coimbra. Ocupa o rosto de meia folha de papel, estando o verso preenchido com um segundo rol. Na linha 13, uma segunda mão escreveu o algarismo 4 da data de 1614.
Original

| 25r |

diguo eu baltesar roiz. morador no lu
2
guar do uilar termo da uila de fonterCada
que eu tenho hüa arte de manoel al
4
uers emperza em lisboa Ano i6i5
(-)


(-)

6
q. tenho hü leuirnho de emsinar os me
ni{...} nos a deretirna Ciristam pelo pader marCos
8
Jorgue da Conpanhia de Jhus. aCerCemta
da pelo pe. Jna|C| Cio martïz da mes
10
(*)
ma Cõpanhia Cõ as liCemCas ne
12
Ce[...]as emperza em {l} Coimbera
Ano i6i4
14
baltesar roz.

Edição

| 25r |

Digo eu Baltezar Rodrigues morador no lugar do Vilar termo da vila de Fonte Arcada que tenho uma arte de Manuel Álvares impressa em Lisboa ano 1615
Que tenho um livrinho de ensinar [aos] meninos a doutrina cristã pelo padre Marcos Jorge da Companhia de Jesus acrescentada pelo padre Inácio Martins da mesma Companhia com as licanças necessárias impressa em Coimbra ano 1614
Baltezar Rodrigues


VI
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 218, Cadernos do Promotor, fls. 392r-393v, Montemor o Novo, 1630. Requerimento despachado em 1630, da autoria de um procurador anónimo que representava duas cristãs-novas que cumpriam penitência em Montemor o Novo. Ocupa a primeira face de uma folha inteira de papel dobrada.
Original

| 392r |

Emlustricimos
2
senhores
($)
Dizem maria gomes e izabel gomes am
2
bas yrmas que elas sairão no auto da
fee que se selebrou na çidade de lxa.
4
pr. a era de 1629 anos penetenciadas
elas supptas. semper conteniarão com
6
cuas penitencias a igeria como he obri
gasão elas cam mosas domzelas mui
8
to pobers e orfas imdo elas de madruga
da por não terem quem as acompan
10
he e estando elas ia iumto a igeria ti
nhm tiradas as penitencias por ser de
12
madrugada estar a igeria fexada o al
caide as permdeo e as liuou a cadeia do
14
mde estam perza pelo q.
(*)
16
pedem a vosas ss. pelas cimquo
xagas de yhus. xpo. ce compade
18
cam de sua pobera e orfindade em
as mandar soltar et R esmola
20
m.

Edição

| 392r |

Ilustríssimos senhores
Dizem Maria Gomes e Isabel Gomes ambas irmãs que elas saíram no auto da fé que se celebrou na cidade de Lisboa por a era de 1629 anos penitenciadas elas suplicantes sempre continuaram com suas penitências à igreja como é obrigação elas são moças donzelas muito pobres e órfãs indo elas de madrugada por não terem quem as acompanhe e estando elas já junto à igreja tinham tiradas as penitências por ser de madrugada [e] estar a igreja fechada o alcaide as prendeu e as levou à cadeia donde estão presas pelo que
Pedem a vossas senhorias pelas cinco chagas de Jesus Cristo se compadeçam de sua [pobreza] e orfandade em as mandar soltar e [rogam] esmola muito


VII
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 230, Cadernos do Promotor, fls. 536r-537v, Évora, 1631. Carta de ameaça de denúncia na Inquisição, da autoria de João Machado, de 22 anos, natural e morador em Évora, alfaiate, filho de Brás Fernandes, requerente de almoxarife e de uma cristã-nova, casado com uma mulher parda e preso por adultério na cadeia pública de Évora por instância da mãe e da mulher. A mensagem e o sobrescrito, com o endereço do pai, ocupam as faces exteriores de uma folha inteira de papel dobrada. Cf. edição interpretativa supra, cap. I, p. 40.
Original

| 536r |

fasa mecer de me terem perzo e mais
2
de andarem com bedises ja que {oz} uzo
comigo deste modo eu uzarei dotro modo
4
com u.m. eu jrei a trade a mequicão
{e mef} {.} e me ede dezenfadar com minha
6
mai que nuqua o ela fora tam madita
casta amtam jrão a diogo ribero que
8
a tire de la {oobe} e o meu pai poqos ande s ser os seos dias comigo antam mas quei
10
logo me emforque que eu não ede morei
mais que hüa ues porquei quem tem
12
tam maldito pai e tam maldita mai
não auia de parecer ou ter ge{m} /mte/

| 537v |

A bars frzi. no outeiro
2
de são uisente
h

Edição

| 536r, 537v |

[Face à mercê] de me terem preso e mais de andarem com [bedices] já que usa comigo deste modo eu usarei doutro modo com vossa mercê eu irei à tarde à inquisição e me hei-de desenfadar com minha mãe que nunca o era fora tão maldita casta antão irão a Diogo Ribeiro que a tire de lá e o meu pai poucos hão-de ser os seus dias comigo antão mas que logo me enforque que eu não hei-de morrer mais que uma vez porque quem tem tão maldito pai e tão maldita mãe não havia de parecer ou ter gente
A Brás Fernandes no Outeiro de São Vicente


VIII
ANTT, Inquisição de Lisboa, liv. 221, Cadernos do Promotor, fls. 476 r-v, Lisboa, 1631. Carta do punho de Francisca Pinheira, solteira, com parte de cristã-nova, a seu pai, Filipe Leitão, sentenciado pela Inquisição. A carta ocupa o rosto e o verso de meia folha de papel.
Original

| 476r |

($)
Meu pai i meu sro. primita noso
2
sro. esta aChe a VM. nesa [?] lha Cõ
todos os filises susesos q. estas fas. dezeia
4
õ pa. Cõsolasão nosa q. mal pode ela
asistir in nos pois ha infinitos tenpos não
6
temos uisto Cartas në nouas në pa. esa
patria desta uão nauios seia ds. mtas. ue
8
zes louado q. asin he siruido Cõ esta uão
Cartas em q. dou Cõta do q. ha susidido
10
dipois da partida de VM. i dipois de as ter
feito Chegou mel. ledo i troxe nouas de me
12
us irmãos boas grasas a ds. Cõ hüa letra
de des mil reis q. mal suprio a Cub
14
rirmos as Carnes [?] mandauão hü
Caixão dasuquar não ha nouas deles
16
do q. mi não admira por dizeren anda
ese mar Colhado de inimigos nos fi
18
quamos nestes altos in Cõpanhia de m
inha tia q. por uergonha do mundo
20
o fes os {.}aixos esão alugados a gen
te Cazada i onrada Cõtudo não deixe
22
de lhe agradeser a minha tia o mur
tifiquarse apartarse do seu amor pa.
24
mor de nos de gaspar pinheiro {...} tinu
a Cõ seu primor Cõsolandonos q. sobre
26
o Credito de VM. nos ira dando a porsa
// o {.}rdinaria queira ds. não si enfade i antes q. este Cheg
2
ue peso a VM. pelas sinquo Chagas de ds. nos admita in sua Cõ
panhia pa. aliuio de tantos trabalhos que não temos nisisida
4

(&)
//

| 476v |

a VM. que quen të mtas. Rendas perese Cõ
2
fome i temos outr[?] prinsipi(.) pois in i
(&)

lho são tantas as Cuuas q. leua mta uen
(&)

4
gë ao inuerno enfin q. ate os tenpos esta
(&)

torquados VM. si não desCude de noso e
(&)

6
paro q. he tenpo que samos molheres Ca
(&)

rina si ReComenda na grasa de VM. i eu i
(&)

8
nha tia fazemos o mesmo a q. noso sr
(&)

[???] (.)
10
o|d| bidientes fas. de VM. Catirina pinh
(&)

frCa. da Veiga

Edição

| 476r-v |

Meu pai e meu senhor permita Nosso Senhor esta ache a vossa mercê nessa ilha com todos os felizes sucessos que estas filhas desejam para consolação nossa que mal pode ela assistir em nós pois há infinitos tempos não temos visto cartas nem novas nem para essa pátria desta vão navios seja Deus muitas vezes louvado que assim é servido com esta vão cartas em que dou conta do que há sucedido depois da partida de vossa mercê e depois de as ter feito chegou Manuel Ledo e trouxe novas de meus irmãos boas graças a Deus com uma letra de dez mil réis que mal supriu a cobrirmos as carnes [...] mandavam um caixão de açúcar não há novas deles do que me não admira por dizerem anda esse mar coalhado de inimigos nós ficamos nestes altos em companhia de minha tia que por vergonha do mundo o fez os baixos estão alugados a gente casada e honrada contudo não deixe de lhe agradecer a minha tia o mortificar-se por apartar-se do seu amor por amor de nós de Gaspar Pinheiro continua com seu primor consolando-nos que sobre o crédito de vossa mercê nos irá dando a porção ordinária queira Deus não se enfade e antes que este chegue peço a vossa mercê pelas cinco chagas de Deus nos admita em sua companhia para alívio de tantos trabalhos que não temos necessidade [...] a vossa mercê que quem tem muitas rendas perece com fome e temos outros princípios pois em julho são tantas as chuvas que leva muita vantagem ao inverno enfim que até os tempos estão trocados vossa mercê se não descuide de nosso amparo que é tempo que somos mulheres Caterina se recomenda na graça de vossa mercê e eu e minha tia fazemos o mesmo a que Nosso Senhor [...]
Obedientes filhas de vossa mercê Caterina Pinheiro [e] Francisca da Veiga


IX
ANTT, Inquisição de Évora, Cadernos do Promotor, liv. 215, fl. (10, Estremoz, 1638. Carta de súplica e ameaça, escrita a pedido de um preso da cadeia pública de Estremoz, que a terá perdido aquando da transferência para o cárcere da Inquisição de Évora. O preso era João Mendes Bulhão, meio cristão-novo, cardador, de 46 anos, natural e morador em Estremoz, acusado de judaísmo. O texto ocupa o rosto de um oitavo de folha de papel.
Original

| (10r |

senhor Jerónimo guomes
2
(*)
Eu paso muitas nisisidades aqui
4
nesta caza pro me tre aqui anto
nio guomes pro seu guosto pere
6
sendome sem lho eu dever m[?] so q.
eu lhe alenbro a uose q. fransisquo
8
teles de pina me leuara caminho
Deuora proq. tenho de q. me acuza
10
r e sera pro toda esa semana se
Deos [?] quizer e antão la mi uirei
12
con antonio guomes e con os mais se
nhores a quem eu tenho obirga
14
são mas o q. lhe alenbro q. a de se
r mais sedo do q. uoses cuidam
16
con isto não sou mais larguo
grade deos a uosa u.m. João men
18
des bulhão neto de ianna me
ndes ramela (.)
20

(-)

fasame u.m. de mi mãodar
22
uma esmola proq. pa{s}o mu
itas nisidades e me pere{s}o
24
aqui nesta caza seia pro
amor de deos

Edição

| (10r |

Senhor Jerónimo Gomes
Eu passo muitas necessidades aqui nesta casa por me ter aqui António Gomes por seu gosto perecendo-me sem lho eu dever [...] que eu lhe alembro a você que Francisco Teles de Pina me levará caminho de Évora porque tenho de que me acusar e será por toda essa semana se Deus quiser e antão lá me virei co António Gomes e com os mais senhores a quem eu tenho obrigação mas o que lhe alembro que há-de ser mais cedo do que vocês cuidam com isto não sou mais largo guarde Deus a vossa vossa mercê João Mendes Bulhão neto de Joana Mendes Ramela
Faça-me vossa mercê de me mandar uma esmola porque passo muitas necessidades e me pereço aqui nesta casa seja por amor de Deus


X
ANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 300, Cadernos do Promotor, fls. 742r-v, Soutelo, 1642. Pasquim atribuído a Gonçalo Afonso, de 54 anos, lavrador, morador em Soutelo, difamando o abade da vila, o padre Manuel Teixeira, comissário do Santo Ofício. No verso do quarto de folha de papel, cujo rosto contém o texto panfletário original, conservam-se três marcas de cola. Cf. edição interpretativa supra, cap. I, p. 62.
Original

| 742r |

habade de soutello barill de pollua/o/ ra [?] he fre
2
hemzoneiro dai ha uosa fazemd[.] não deiis
ha fazemda do pouo deixai ha Companh[.]
4
dos Co/ho/ qualhas ha companah Com hos que uos dom
has dizimas he lloguo guorurnareiis
6
botai ha manceba fora não hamdeiis hem
p{.}quado mortall Criado do habade de queimada
8
ritoso teix/e/ ra reitolliquo beiai ha guaspar frco.
he guaspar da Costa he simão llors. no quu
10
elles [.] beiie{m} m ha uos deshemquitador das houelha/s/
que llhe pegua ha ronha hadeuinhailla ho es
12
Criuão sois Como ho CaCador que quaCa de uo
{ll} ll llta Como ue ho ieito metelho ferom ha{.} Ca
14
botirais muto mall ha/o/ smbreiro demtes hareg
anados

Edição

| 742r |

Abade de Soutelo barril de pólvora é [...] dai a vossa fazenda não deis a fazendo do povo deixai a companha dos [...] a companha com os que vos dão as dízimas e logo governareis botai a manceba fora não andeis em pecado mortal criado do abade de Queimada [...] Teixeira [...] beijai a Gaspar Francisco e Gaspar da Costa e Simão Lourenço no cu eles beijem a vós desenquitador das ovelhas que lhe pega a ronha [adivinhai-la] o escrivão sois como o caçador que caça de volta como vê o jeito mete-lhe o ferrão [aí] cabotirais muito mal a sombreiro dentes arreganhados


XI
ANTT, Inquisição de Lisboa, liv. 227, Cadernos do Promotor, fl. 6r-7v, Lisboa, 1645. Carta de denúncia do punho de Antónia de Oliveira, moradora em Lisboa, casada com Gaspar de Cerqueira, sargento da companhia dos criados d'El Rei. A delata, acusada de feitiçaria, é Vicência de Faria, tecedeira. A carta ocupa as duas primeiras faces de uma folha inteira de papel dobrada.
Original

| 6r |

esta molher a Çonheso uai por quatro annos dandose por
2
Çasamentera deÇalrose por feitis,eira que tinha Çomido muito
rem/e/ dio nesta tera pelo o que sabia de feitisarias aonde
4
me dise que tomaua Çabesa de bode negro pa. fazer friui
douros Com muitas Çouzas diabliquas pa. fazer uir pesoas de muito lonig /teras/
(-)

6
toma a tera debaÇho dos peis i esta Com os olhos postos en m
muidandose a pesoa ua tomala pera lhe fazer fitisos isto me dise
8
ella

(-)

10
toma mididas das esCaidas i das porta por nastros da Cabesa i fallos
en boquadinhos pera feitisos isto me dise ella que fazia
12

(-)

tira almas da outra uida Com deuasão pera lhe falarem a suber
14
o que esta pera uir isto me dise que o tinha feito

(-)

16
toma a pedra dera i piza Com mais feitisos i da a beber
pera lhe darem isto me dise que fazia i se me fose nesesaro
18
que ella mo faria a min mesma

(-)

20
fas deuasais de santos defezos que /he/ são diniel i /s/ anto arasmo
Com quartas diaboliquas Com tres Candeinhas asezas nua sem
2
2 Camiza Com os Cabellos deitados pellas Costas abaCho fazendo
mezuras pelos Cantos de Caza i abre a genela fora doras i dis
24
palauras diaboliquas pera /a/ dro o Canpanro que ueia esta
lhe ui fazer eu en sua Caza
26

(-)

toma hüa basora i enfeita i uistida Como molher i deita pella
28
esCasda abaCho di nuote fora doras Com palauras diabli
quas i feiCha a porta i pola manha aCha ensima isto
30
me dise ella que fazia

(-)

32
busqua galinha pellos munturos mortas Com feitisos pera
firuidouros isto me diChe ella que fazia
34

(-)

furtarome hüa toalha de maos ella me dise que diente de mi
36
faria Couza pera adiuinha quë ma tomara tomou ella hüa
pinera Com hüa tizoura no buraCo da pineira Com hüa quar
38
ta diaboliqua dibaCho da pinera i a fes ballha Com pala
uras isto ui eu mesmo
(-)

| 6v |

aponto por testemunhas gaspar de serqra. meu marido que /a/ sistio
2
nesta Caza algüas anos

(-)

4
felipa lobata de bulhais mora en Caza de Caterina nobre na orta
sequa tam/be / site en Caza de dona brites uiu/u/ a que foi molher do Caua
6
quo

(-)

8
o fiziCo /mor/ da armada lopo dias da Cunha foi a tangere {...}
{...}
10

(-)

fransisCo antunes mora na sua fazenda preto de nosa snar.
12
dos liuais he fora hade uir daqui a quinze dias

(-)

14
maria doliura. tisideira en sua Caza asiste desta usensia de fa.

(-)

16
gaspar moso prado foro Criado do sargento mor bento misiel
mora no Chão do lorero
18

(-)

maria de faria tem tenda na Capela /del rei/ sua prima
20

(-)

ines di lião molher de hüa fiziquo que lhe {...} deu
2
ora mora no goguo da pela que lhe fazia as Cartas de
aboliquas que ella mo dise a mi mesma
24

(-)

sua mai irmã Consuantes nestas Couzas que todas
26
tres trato nestas Couza Chamase a irmã estasia
da siliua tena Comsiguo sua /mai/ esta na Crauoera Chamas
28

(-)

luiza da silua

Edição

| 6r-v |

Esta mulher a conheço vai por quatro anos dando-se por casamenteira declarou-se por feiticeira que tinha comido muito remédio nesta terra pelo o que sabia de feitiçarias aonde me disse que tomava cabeça de bode negro pera fazer fervedouros com muitas cousas diabólicas pera fazer vir pessoas de muito longes terras
Toma a terra debaixo dos pés e está com os olhos postos em mudando-se a pessoa vai tomá-la pera fazer feitiços isto me disse ela
Toma medidas das escadas e das portas por nastros da cabeça e fá-los em bocadinhos pera feitiços isto me disse ela que fazia
Tira almas da outra vida com devação pera lhe falarem a sobre o que está pera vir isto me disse que o tinha feito
Toma a pedra d'ara e pisa com mais feitiços e dá a beber pera lhe darem isto me disse que fazia e se me fosse necessário que ela mo faria a mim mesma
Faz devações de santos defesos que é São Diniel e Santo Arasmo com cartas diabólicas com três candeiinhas acesas nua sem camisa com os cabelos deitados pelas costas abaixo fazendo mesuras pelos cantos de casa e abre a janela fora d'oras com palavras diabólicas pera [o] adro o [campanário] que veja esta lhe vi fazer eu em sua casa
Toma uma vassoura e enfeita e vestida como mulher e deita pela escada abaixo de noute fora d'oras com palavras diabólicas e fecha a porta e pola manhã acha em cima isto me disse ela que fazia
Busca galinhas pelos monturos mortas com feitiços pera fervedouros isto me dixe ela que fazia
Furtaram-me uma toalha de mãos ela me disse que diante de mi faria cousa pera [adivinhar] quem ma tomara tomou ela uma peneira com uma tesoura no buraco da peneira com uma carta diabólica debaixo da peneira e a fez [balhar] com palavras isto vi eu mesmo Aponto por testemunhas Gaspar de Cerqueira meu marido que assistiu nesta casa alguns anos Felipa Lobata de Bulhães mora em casa de Caterina Nobre na Horta Seca também [assiste] em casa de dona Brites viúva que foi mulher do Cavaco
O físico-mor da armada Lopo Dias da Cunha foi a Tangere
Francisco Antunes mora na sua fazenda perto de Nossa Senhora dos Olivais é fora há-de vir daqui a quinze dias
Maria d'Oliveira tecedeira em sua casa assiste desta Vicência de [Faria]
Gaspar moço pardo forro criado do sargento-mor Bento Misiel mora no Chão do [Loreto]
Maria de Faria tem tenda na capela d'el rei sua prima
Inês de Lião mulher de um físico que lhe deu ora mora no Jogo da Pela que lhe fazia as cartas diabólicas que ela mo disse a mi mesma
Sua mãe [e] irmã consoantes nestas cousas que todas três trato nesta cousa chama-se a irmã Estácia da Silva tem-na consigo sua mãe está na Carvoeira chama-se
Luísa da Silva


XII
ANTT, Inquisição de Lisboa, liv. 229, Cadernos do Promotor, fls. 426r-v, Lisboa, 1648. Memorial de conjuros para inclinar vontades e correspondentes instruções, entregues na Inquisição como prova das culpas de feitiçaria de Maria Correia. O texto, de duas mãos sucessivas e não identificadas, ocupa as duas primeiras faces de meia folha de papel dobrada. Apenas se edita o trecho não formulaico, contido no fl. 426v.
Original

| 426v |

hande mandar dizer huma misa
2
quando começarëm esta deuacão
pelas almas com seu Responso
4
e outras quatro q. ande ser sinquo
por todas tanto q. o atroguarem
6
as almas o [?] lhe pedirem e ande
hir a tenda mercar dois nouelos
8
de barBante e o q. pedirem por eles
hande dar e ande thomar as medidas
10
no portal como uai e dando nos no q. for
Razando do fio dos nouelos #
12

(-)

Edição

| 426v |

Hão-de mandar dizer uma missa quando começarem esta devação pelas almas com seu responso e outras quatro que hão-de ser cinco por todas tanto que o outorgarem às almas o [que] lhe pedirem e hão-de ir à tenda mercar dois novelos de barbante e o que pedirem por eles hão-de dar e hão-de tomar as medidas no portal como vai e dando nós no que for rasando do fio nos novelos


XIII
ANTT, Inquisição de Lisboa, liv. 229, Cadernos do Promotor, fls. 439r-440v, Cascais, 1648. Carta de denúncia, escrita por Gaspar João da Costa, sargento da fortaleza de Nossa Senhora da Luz de Cascais, preso no calabouço da fortaleza por ordem do delato, o capitão Manuel Mendes Flores. Ocupa as três primeiras faces de uma folha inteira de papel dobrada.
Original

| 439r |

Snor.
($)
enqizidores Caberam voCas Cenhorias q. eu Ciruo de Car
2
gento do Capitam manoel mendes froles na fortaleza
de noCa Cenhora da lus de CasCais e antrando nesta fortaleza
4
aChi fama q. este Capitam era Comitigo Couza q. eu nam podia
Crer perguntei Con qem me diCeram q. Com d[?] mingos franCis
6
qo artelheiro e un dia demandando heo Ceu negro Ciuemes
velte. domingos franCisqo lhe diCe q. o auia de fazer qeimar
8
porguntando porqe respondeu o negro bastiam de nome q. por
qe. dromia Com Ceu Cenhor a estas palauras lhe Chamou o Capi
10
tam Comitigo ao negro e a min me diCe o negro q. dromira
o Cinhor e o Cinhor a ele eu nam lho qeria Cre ele iurou
12
por i|ga| esus Cristo esta fama he prubriCqa e a min me Come
teu por tres uezes me diCe e q. me deitaCe Com ele na Cama e q.
14
mëConmendaCe ao diabo eram des oras da noite e isto ouuiu
ioam gomes Cabo de esCoadra q. Chagou pera ir mudar mas
16
nam astendeu a peCa

(-)

18
mais tem hü liuro da irizia q. eu lho ui q. o deu a ler a fernão
da ribeira e a iuliam pinho e a biCen Carualho e logo es
20
Condeo porq. eu lho reprouei este liuro ten os nomes
dous Coldados noCos e de todos os farize. q. CorCifiCaram a Cris
22
to e os mais tormentos q. lhe fizerão

(-)

24
mais diCe q. Canta barbora q. tinha Cara de bebada e q. am
daua amanCebada Com biCente da Costa e Com manoel
26
Coelho e isto por uezes

(-)

28
mais diCe estando a ïfantaria iunta e os pagadores
na fortaleza Chamen qa o tizoureiro de mafoma
30
e perguntaram os pagadores q. era o tizourei
ro de mafoma respomdeo ele Capitam q. era ioão
32
gomes mordomo de noCa Cenhora da lus
de q. todos fiCarão espamtados e al

| 439v |

mais diCe q. o Conde de uila franqa q. andaua Com o Ceu paige oli
2
ueira e q. o Cabia CondeCa e o pe. manoel inaCio Capelam do mes
mo Conde e todos os de Caza testemunhas q. estauão prezentes
4
luis de mendonCa almoxirife biCente Carua/lho/ gaspa ioão da Cos
ta
(-)

6
mais ueio aqi ter ho Coldado Ceu Camarada do brazil e diCe
q. Ce foCe a eCa Canta Caza e diCes o q. Cabia dele q. faria qeimar
8
este Coldado ioão andres de Ceu nome he ConhiCido

(-)

10
mais tem uma omige de noCa snor. do rozairo Cõ Ceu ben
to filho nos braCos atras a Cama adonde esta esCarando e
12
o
// mais//
falando muntas Co[?] idades e outras oras bota o man
to os pes de noCa Cenhora da lus
14

(-)

mais Ce lauantou hü dia da Cama e fes Camaras e man
16
dou tomar a u[?] idade pelo Ceu nego e ueio o Corpo da gar
da e enChe a Cama de gonCalo rodriges [???]
18
to de meter a mais na boCa a io. luis e fes diligen
Cia e destas Couzas lhe diCe biCente Carualho q. Ce uieCe a
20
Cuzar e mais o Code estauel e q. eu q. o auia de aCuzas eu nam
nam Cabia nada desta treiCam e fui pedir liCenCa pera ui
22
uir a lisboa ele prendeume e tem gardas a porta do Calha
bouCo q. nhüma peCoa fale Comigo e ti{.}rou testemu
24
nhas e dizias testemunhas q. eram Couzas do Canto fiCio

(-)

26
e mais deClaro q. ao dito domingos franCisqo lhe ui o fato na Ca
ma dele Capitam pela manham o in/de/ busCar as Chaues e mais
28
o ui abraCar e beigar na faCe e o dia e noute q. o dito domin
gos franCisqo la dromia nam Ce abria porta Ce não as no
30
ue oras do dia e nam dromindo Ce abria a Cinqo e todas estas
Couzas paCam na uerdade na forma esCritas e aCim o iuro aos
32
Cantos auangelhos e desenCarego minha ConCienCa oiie
deradeiro de agosto deste prezen ano de mil CeisCentos
34
Corenta oito anos Calgento de uoCas Cenhorias q. numqa es
Cerue outro papel nem tomou materia nesta uida
36
Cnão despois daqi prezo
Gaspar ioão da Costa
38

(-)

testemunhas
40
antonio luis alfate
domingos fereira artelhairo
42
biCente da Costa artelheiro antonio manuel /

| 440r |

luis de mendonCa almoxirife
2
franCisqo luis belouro artelheiro
biCente Carualho Chapineiro
4
ioão filho do nabeiro pedreiro
manoel Carualho Capateiro
6
antono manoel teCelam
gonCalo reodriges aelfaate
8
ioão luis labrador ë aluide
manoel Calema Coldado
10
maria alures de anderade
q. mora dentro na fortaleza
domingos antunes Coldado
2
maoel Coelho pedreiro
baltezar nugeira Cria
4
do do marqes de CasCais
biCente franCisqo Coldado
6
io gaspar Caspateiro
[?] ziderio martin Capatei
8
ro
antonio manoel Capa
10
teiro
domingos alures Coldado
12
e as mais q. as testemu
nhas refirirem


XIV
ANTT, Inquisição de Lisboa, liv. 229, Cadernos do Promotor, fls. 442r-444v, Lisboa, [1648]. Cartas não datadas, arquivadas entre documentos de 1648, de Margarida de Azevedo e Vasconcelos, moradora em Lisboa, que se identifica como "pessoa nobre e recolhida". Em uma das cartas denunciam-se várias culpadas de feitiçaria (fls. 442 e 444) e na outra carta segue uma nota de remessa da denúncia. É esta segunda, escrita na primeira face de meia folha de papel dobrada, que aqui se transcreve.
Original

| 443r |

piedozos senhores Inquizidores
($)
Com este vai hü papel es
2
crito por mim de algüas
couzas q. tinhamos sabi
4
na forma j as aponto
e pa. descargo de nosas com
6
ciencias e não por credito
q. demos a nada disto e pa.
8
quietasão de nosas com
fisõis pidimos a esse se
10
nado aseite como se fore
mos pesoalmente e isto por
12
seremos pesoas nobres e
Recolhidas e não se sa
14
ber por credito de quem
nos possa uer pidimos cõ
16
umildade a vosas mes. nos
dem ordem pa. noso com
18
fesor nos asoluer visto di
zerem ser cazo Rezeruado
20
e em tudo estamos pello
que vosas meres[?] fizerem
22
sendo que nos não tinhamos
// escupullo por nos não pareser culpa
2
formada declaro q. toda a familia
de meus pais e auos somos christãos
4
uelhos Ds. gde. a vosas mes. em a 4 fra.
Margda. De Azeuedo e uascõcellos
//


XV
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 220, Cadernos do Promotor, fl. (30r-v, Alcácer do Sal, 1649. Carta de denúncia, relativa ao carcereiro da cadeia pública de Alcácer do Sal, escrita em nome de vários presos por mão não identificada. O texto da carta e o sobrescrito ocupam as faces exteriores de meia folha de papel dobrada.
Original

| (30r |

Senhores enquisidores
2
(*)
Os prezos da Cadeia de alcasere do sal
4
fasemos a saber a uosas merses que
nesta tera esta hüa ioão roiz. Coseiro
6
Cristão nouo natural da vila de araolhos
que ora serue a dois meses de Casereiro
8
nesta Cadeia que uindo hüa note destas
de iugar pera Casa se foi a hüa Cristo
10
e o tomoi nas maus e dize estas palauars
uem qua tu não mo prometeste de mo dar
12
pera que mo tiras es hüa enposteiro agora
te digo que não quero Cre en ti senão
14
na minha le e tomo o Cristo e lhe deu mui
tas panCadas que o Crebo agora fasemos
16
estas regas a uosas merses pera nos desen
Caregamosnos agora dis que se quer pasar
18
a Castela testemunhas manoel da silua
anto. glz. tome gonsalues manoel saram
20
felipa nunes frca. gonsalues todos perzos
nesta Cadeia

| (30v |

Aos Senhores enquizi
2
dores na mensa do santo
ofisio na sidade de
4
euora uai da Ca
deia de alCasere
6
do sal

Edição

| (30r-v |

Senhores inquisidores
Os presos da cadeia de Alcasere do Sal fazemos a saber a vossas mercês que nesta terra está uma João Rodrigues Couceiro cristão-novo natural da vila de Arraolhos que ora serve há dois meses de carcereiro nesta cadeia que vindo uma noite destas de jogar pera casa se foi a uma Cristo e o tomou nas mãos e disse estas palavras vem cá tu não mo prometeste de mo dar pera que mo tiras és uma embusteiro agora te digo que não quero crer em ti senão na minha lei e tomou o Cristo e lhe deu muitas pancadas que o quebrou agora fazemos estas réguas a vossas mercês pera nos derencarregarmos-nos agora diz que se quer passar a Castela testemunhas Manuel da Silva António Gonçalves Tomé Gonçalves Manuel Sarrão Felipa Nunes Francisca Gonçalves todos presos nesta cadeia
Aos senhores inquisidores na mensa do santo ofício vai da cadeia de Alcasere do Sal


XVI
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 223, Cadernos do Promotor, fls. 187r-188v, Beja, 1653. Carta enviada aos inquisidores de Évora por um Diogo de Brito, possivelmente um familiar do Santo Ofício, denunciando as heresias de Bartolomeu Baião, morador em São Brissos, termo de Beja. Ocupa as três primeiras faces de uma folha inteira de papel dobrada.
Original

| 187r |

Emlutirsimos senhores (.)
($)
Como cudito de uosas emlustirsmas e cirstão
2
que soi dej comta a uosas emlustirsimas dos
dezaforos que em huma caza deste tremo se
4
cometem, que cão bastamtes pera esta cida
de ser hum garmde castigo neste termo
6
na fergezia de cão bircos mora hum ber
tolameu baam por alcunha o rabo a costas
8
o qual hei certo não uiue como cirstão
mas amtes parese cer ylegem e como
10
tal uiue (.) dis pubirquamente q. uiue
com o diabo e que todos os dias fala com
12
ele ters uezes e lhe be[?] a os pes fase
emdemuninhado e fala cem rispeito
14
nem temor de deos quamdo samea pe
rmero emcomenda o tirgo aos djabos
16
e asim emcomendoj o ano pasado ao dia
bo seis quarteros de sauada e não lhe
18
naseo nem garm dise que hera
mais puro que deos e que maldi{ta}
20
fose a hora em que deos nasera dise [...]
não conhesia a deos nem a são pedor
2
2 nem a são palo e que lhe não paresese
deos diamte que não o queria uer e se
24
lhe paresese que ho auia raxhar como
qual quer emfame dise temdose
26
amasado que não queria que se cozese
o pão que daua o diabo amasa e mais
28
quem a cirara dise que daua o dia
bo o dinhero e logo dise reportome
30
que algus dão o diabo o djnhero
// fora as curzes mas eu douo curzes e tudo hei barsfemo de corte
2
que terme quem o houe dise que sua moher que he mais pura que
o se e as terlas fala coizas com comtar deos que o xhão terme
4
cão tamtas as coizas que fala que fas termer que ou oue muntas coizas não se poi
aquy porque as testemunhas as decalrarão as testemunhas cão seu gam
6
ro domingos de freites manoel baam e sua molher no araualdinho ana
dalues e sua filha no araualdinho os seos cirados domingos frz. seu boe
8
ro o atemtado seu cirado o seu escarsuo luis os seos seareros deste
ano o carualho que estai comcertado com [...] gomes ferador e compa
10

[&]
//

| 187v |

do mesmo carualho que xhama youão frz. youão frz. que
2
esta com pero de ferites migel frz. que esta com domingos
de freites amtonio gomcalues que esta com luis da roxha
4
amtonio mendes fiaho e todos os seos cirados e os carsuos
que com hele fizerão as eras e ce lhe decalrara os nomes
6
manoel dias corea na raperza pero do monte e toda
a sua caza pero camcado e sua molher youão cam
8
cado e sua molher youão da lamca e a gemte de sua caza amtonio fialho
domingos martis que mora na orta garmde de quimtos o cura de
10
quimto youão maxhado o filho do carualho tesalão e seu
pai e mai a nosa senhora da garca o pyzuero da raperza
12
e sua molher frco afomco seu pastor estas testemunhas
descubirrão outars muntas coyzas mais das que aqui uão
14
por que nesta caza se uiue como que não se conhese a deos que
se o home he este a molher {...} hei pior pois uiue munto
16
pior que hele gura cem timor de deos sabe artes cura
com palauas amda ela com dois pirmos com irmaos e seos
18
sobirnhos direitos hum celrigo a q. xhama luis coltero
e o outor xhamão bars gomcalues com ambos amda aman
20
sebada com barbo dezaforo e por seu gamro lho tolher ti
uera em dja de são bircos garmdes estoras nas quais dise
2
2 ela que ela que hera mais pura na omra que nosa senhora
esta molher tem huma filha em caza que xhama tar
[&]

24
ga roz. viuua que he comader deste bars gomcalues
amda amansebada com ele cemdo comader {...} e pirma
26
se uosas emlustirsimas puxharem por estas coizas axharão
outars maores testemunhas de jsso cão a ramos adela
28
na rua deuora jlena sua escarua a uermelha sua cirada
ana da lus e sua filha o baam e sua molher maria que foi
30
sua escarsua que esta em caza de youão martis na coridera
luis ceu escaruo domingos de freites seu gamro suas fi
[&]

| 188r |

filha caterina mersta molher de domingos de freites duas
2
cunhas de domingos de frites duas filhas de domingos de fe
rites birtes do monte na moraria loiremco gacome e sua
4
molher ines baoa seu irmão youão baam o carualho e sua
molher a nosa senhora da garca sua filha na raperza e seu
6
marido que hei pizuero youão da lamca youão camcado
e sua molher pero do monte e sua molher estas nomearão
8
outars muntas que disto sabem uosas emlustircimas
deue puxhar por estas cojzas ao cumisario se deo comta
10
ya duas pesoas duidas de serem cirstas atei aqui se
não tem feito obar alguma uosas emlustircimas
12
farão o que forem ciruidos e for mais ceruiso de deos
cugos pesaos o se aumente por largos anos beia
14
oye 2 de ganero 653
($)
Cudito de vosas emlustirsimas diogo de birto cte.

Edição

| 187r-188r |

Ilustríssimos senhores
Como súbdito de vossas ilustríssimas e cristão que soi dei conta a vossas ilustríssimas dos desforos que em uma casa deste termo se cometem, que são bastantes pera esta cidade ser um grande castigo neste termo na freguesia de São Brissos mora um Bertolameu Baão por alcunha O Rabo a Costas o qual é certo que não vive como cristão mas antes parece ser herege e como tal vive diz pubricamente que vive com o Diabo e que todos os dias fala com ele três vezes e lhe beija os pés faz-se endemoninhado e fala sem respeito nem temor de Deus quando semeia primeiro encomenda o trigo aos diabos e assim encomendou o ano passado ao Diabo seis quarteiros de cevada e não lhe nasceu nem grão disse que era mais puro que Deus e que maldita fosse a hora em que Deus nascera disse [...] não conhecia a Deus nem a São Pedro nem a São Paulo e que lhe não parecesse Deus diante que não o queria ver e se lhe parecesse que o havia de rachar como qualquer infame disse tendo-se amassado que não queria que se cozesse o pão que dava ò Diabo a massa e mais quem a criara disse que dava ò Diabo o dinheiro e logo disse reporto-me que alguns dão ò Diabo o dinheiro fora as cruzes mas eu dou cruzes e tudo é blasfemo de sorte que treme quem o ouve disse que sua mulher que é mais pura que o céu e as estrelas fala coisas contra Deus que o chão treme são tantas as coiss que fala que faz tremer quem o ouve muitas coisas não se põe aqui porque as testemunhas as declararão as testemunhas são seu genro Domingos de Freites Manuel Baão e sua mulher no Arravaldinho Ana d'Alves e sua filha no Arravaldinho os seus criados Domingos Fernandes seu boieiro o Atentado seu criado o seu escravo Luís os seus seareiros deste ano o Carvalho que está concertado com [...] Gomes ferrador e compadre [...] do mesmo Carvalho que chama João Fernandes que está com Pero de Freites Miguel Fernandes que está com Domingos de Freites António Gonçalves que está com Luís da Rocha António Mendes Fialho e todos os seus criados e os escravos que com ele fizeram as eiras e se lhe [declarará] os nomes Manuel Dias Correia na represa Pero do Monte e toda a sua casa Pero Cansado e sua mulher João Cansado e sua mulher João da [Lança] e a gente de sua casa António Fialho Domingos Martins que mora na horta grande de Quintos o cura de Quinto João Machado o filho do Carvalho tecelão e seu pai e mãe a Nossa Senhora da Graça o pisoeiro da represa e sua mulher Francisco Afonso seu pastor estas testemunhas descobrirão outras muitas coisas mais das que aqui vão porque nesta casa se vive como que não se conhece a Deus que se o home é este a mulher é pior pois vive muito pior que ele jura sem temor de Deus sabe artes cura com palavras anda ela com dois primos [co-irmãos] e seus sobrinhos direitos um clérigo a que chama Luís Solteiro e o outro chamam Brás Gonçalves com ambos anda amancebada com [bravo] desaforo e por seu genro lho tolher tivera em dia de São Brissos grandes histórias nas quais disse ela que ela que era mais pura na honra que Nossa Senhora esta mulher tem uma filha em casa que chama [...] Rodrigues viúva que é comadre deste Brás Gonçalves anda amancebada com ele sendo comadre e prima se vossas ilustríssimas puxarem por estas coisas acharão outras maiores testemunhas de isso são a Ramos adela na rua d'Évora Ilena sua escrava a Vermelha sua criada Ana da Luz e sua filha o Baão e sua mulher Maria que foi sua escrava que está em casa de João Martins na corredeira Luís seu escravoDomingos de Freites seu genro suas filhas [...] filha Caterina Mestra mulher de Domingos de Freites duas cunhadas de Domingos de Freites duas filhas de Domingos de Freites Brites do Monte na mourria Loirenço Jácome e sua mulher Inês Baoa seu irmão João Baão o Carvalho e sua mulher a Nossa Senhora da Graça sua filha na represa e seu marido que é pisoeiro João da [Lança] João Cansado e sua mulher Pero do Monte e sua mulher estas nomearão outras muitas que disto sabem vossas ilustríssimas deve puxar por estas coisas ao comissário se deu conta já duas pessoas [devidas] de serem cristãs até aqui se não tem feito obra alguma vossas ilustríssimas farão o que forem servidos e for mais serviço de Deus cujos [...] o se aumente por largos anos Beja hoje 2 de Janeiro 653
Súbdito de vossas ilustríssimas Diogo de Brito etc.


XVII
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 224, Cadernos do Promotor, fls. 272r-273v (segunda foliação), Guimarães, 1654. Carta familiar de Helena da Costa, moradora em Guimarães, a seu marido, Francisco Rodrigues, alfaiate, interceptada em Alcácer do Sal, em cuja freguesia a autora da carta julgava localizar-se o destinatário. O documento, escrito em três faces de uma folha inteira de papel, dobrada, fundamenta uma denúncia de bigamia. Cf. edição interpretativa de fragmentos deste texto supra, cap. I, pp. 50-52.
Original

| 272(2)r |

frco. rz. (.)
($) mto. fistiei oubir nouas bosas q. tam
2
desConsolada uibo e sen nouas uo
sas mto mais maginamdo q. bos
4
esquesias de min e da bosa filha
pois bos tenho esCritas Catroze
6
Cartas todas remetidas a setu
uel a Caza de ma. ribeira adonde
8
me mandastas dizer nhüa so Car
ta q. li da bosa mão e Cõ esta ag
10
uora duas o q. me Cauzou grande
pena pelo asima dito e por Cudar
12
que estarias doente a lisboa bos
esCreui por sete portadores ain
14
da não tiue reposta aguora man
dei hüa ho bexigua de manoel maCha
16
do q. esta la ainda não tiue res
posta Como me dizeis q. não tiues
18
tes Carta minha não bos torno
Culpa o não me esCreueres q. ainda
20
se bos as proCuraras as minhas Car
tas era forsa q. de tantas algüa
2
2 bos fora aguora nesta bos quero
auizar de tudo pa. saueres o q.
// se pasa eu mudeime pa. a tore uelha pelo sa migel tanto q. hahi estiue iero
2
nimo preo. me uei penhorar en tudo Canto estaua na Caza dei Conta a uoso Con
padre ele deu ordem pa. se rasgar a penhora eles fiCarão Cõ a papa na boCa
4
tan grande raiba foi a sua e a de ma. fernamdes q. não falou mto. tenpo Cõ o Con
padre e dis os diabos de bos e q. numCa aueis de uir a tera e anda dizendo
6
a toda a iente pa. mo uire dizer hü pouCo q. estais mo espital de lisboa outro po
uCo q. morestes q. ela a min não me salua Cando os mararicos uirão a penhora
8
feita Cudando q. lhe aporueitase e q. não tiuese eu por onde lhe pugar a eles
fizero hüa petição o iuis Como bos fugiras e eu não tinha nada de meu bo
10
tarome fora estiue Com uosa mai enCanto não aChei Caza aguora moro defron
//

| 272(2)v |


de minhas madrinhas aonde morou a grelha estou ahi riCa
2
mente se bos estiueras Comiguo mto. milhor todos os dias estou
olhando se me bateis a porta auizaime Cando aueis de uir se
4
não uindeme [...] busCar q. se eu não andara prenhe oubera
de ir Cõ este ome mas arisiei de não poder andar e mais eu q.
6
mto. doente q. não me atreui a ir falar Cõ este ome a sua tera
o q. mto. dezeiei fazer e mais leuarlhe esta Carta q. Cando
8
me ele leuoi a uosa mandouma por hü moso Como se não qis es
perar e não fis a senão duas reguaras mas fundada de ir la
10
mas iulouos q. ando tão doente q. me não atreui mandei la mi
nha mai Cõ esta dahi a catro dias q. me a uosa foi dada
12
pesouos mto. q. me escreuais todos os Coreos e q. não pase
[&]

a pasCoa Como pasei o natal q. se não bindes ate antan fa
14
zei de Conta q. parindo e uindo o marinhoto dou comoguo la
q. eu deuo de parir pa. a pasCoa não qizera estar sen bos bin
16
de sen falta nhüa não se bos de de dinheiro q. ds. não he de
faltar q. eu ainda não bendi nada do q. me deixastes nem
18
enpinhei nem por iso me uai milhor so ds. saue o q. eu paso
de dia cozo pa. Comer de noute fio pa. Cando parir e pa. pa
20
gar a Camiza e outras meudaies de q. bos sauias Cõ o lensiado
leite ia não tendes Couza nhüa q. o Castinheiro esteue prezo
2
2 en basto ate pagar antam dezia q. bos q. lhe fizestes hüa a
sinado en Caza do Chapeu pardo de lhe dares mil rz. a
24
guora ia não fala niso nem ele não sei aonde anda sen
pre q. numqua o ueio a uoso Conpadre tendes mta. obrigua
26
são porq. en todas as presas [???] Cando bos partistes e outro
dia traziauos não sei Cantos testois Cando bos não aChou
28
fiCou morto por uos enCanto o [???] o aCho mto. serto

| 273(2)r |


ele bos manda mtos. reCados e uos bos não esquesais dele
2
en todas as Cartas e lhe escreuei o q. bos
pareser uosa mai bos manda mtos. reCados e minha mai
4
os mesmos a uosa filha hüa abraso mto. aroChado ieroni
mo luis mtos. reCados o pridigam mtos. eu ta
6
men bos mando hü abraso ainda q. bos mo não mandastes
e bos peso mto. q. me não falteis Cõ nouas uosas duas Couzas
8
bos pido desa sidade Cando bos uie{.} res q. mas traguais
hüa pouCa de casa e hõs Corais q. he Couza q. mto. dezeio q. bem
10
saueis a fin q. os meus leuarão e mais pesouos mto. Como
amiguo q. se tiueres portador serto q. bos alenbreis de min
12
q. paso mtas. nesidades e mais a uosa filha na Cama bos
fis esta Carta q. me bai [?] mto. mal ia a mto. tenpo (.)
14
(*)
mais bos Conto os mtos. traualhões q. pasei Cõ o desenbragua
16
dor q. estiue arisCada a estar na Cadea antam falei a do
us omes q. falase o desenborguador antam dei testemu
18
nhous Como bos estauas auzente auia tres mezes mea uila esta
preza Cõ esta alsada fiCou Culpado na morte do filho de
20
matias /de faria/ dauinde miranda prenderão a mãi dos feiioei
ros po. da Costa o negro e mtas. forsas fizerão por bos q. se
2
2 souberão aonde bos estauas la ouuerão dir busCarbos eu não
o qis dizer porq. ouue medo q. nhõ tornou a iurar so a uos perCu
24
rarão ainda alsada aqui esta ainda não esta isto aCaba
do não sei en q. a de uir a parar q. tam enbrulada esta a ui
26
la a que ds. gde. Como dezeio não aja falta q. me não esCre
uais todos os Coreos e perCurai as minhas Cartas desta uosa
28
(.) molher ilena da Costa (.)

Edição

| 272(2)r-273(2)r |

Francisco Rodrigues
[...]
Muito festejei ouvir novas vossas que tão desconsolada vivo e sem novas vossas muito mais maginando que vos esquecias de mim e da vossa filha pois vos tenho escritas catorze cartas todas remetidas a Setúvel a casa de Maria Ribeira adonde me mandastes dizer e uma só carta que li da vossa mão e com esta agora duas o que me causou grande pena pelo acima dito e por cuidar que estarias doente a Lisboa vos escrevi por sete portadores ainda não tive reposta agora mandei uma ò Bexiga de Manuel Machado que está lá ainda não tive resposta como me dizeis que não tivestes carta minha não vos torno culpa o não me escreveres que ainda se vós as procuraras as minhas cartas era força que de tantas alguma vos fora agora nesta vos quero avisar de tudo para saberes o que se passa eu mudei-me para a torre velha pelo São Miguel tanto que aí estive Jerónimo [...] me veio penhorar em tudo quanto estava na casa dei conta a vosso compadre ele deu ordem para se rasgar a penhora eles ficaram com a papa na boca tão grande raiva foi a sua e a de Maria Fernandes que não falou muito tempo com o compadre e diz os diabos de vós e que nunca haveis de vir à terra e anda dizendo a toda a gente para mo [virem] dizer um pouco que estais no espital de Lisboa outro pouco que morrestes que ela a mim não me salva quando os [maçaricos] viram a penhora feita cuidando que lhe aproveitasse e que não tivesse eu por onde lhe pegar a eles fizeram uma petição ò juiz como vós fugiras e eu não tinha nada de meubotaram-me fora estive com vossa mãe enquanto não achei casa agora moro defronte de minhas madrinhas aonde morou a Grelha estou aí ricamente se vós estiveras comigo muito milhor todos os dias estou olhando se me bateis à porta avisai-me quando haveis de vir senão vinde-me [...] buscar que se eu não andara prenhe houvera de ir com este home mas arreceei de não poder andar e mais eu que muito doente que não me atrevi a ir falar com este home à sua terra o que muito desejei fazer e mais levar-lhe esta carta que quando me ele levou a vossa mandou-ma por um moço como se não quis esperar e não fiz a senão duas regras mas fundada de ir lá mas juro-vos que ando tão doente que me não atrevi mandei lá minha mãe com esta daí a quatro dias que me a vossa foi dada peço-vos muito que me escrevais todos os correios e que não passe [...] a páscoa como passei o natal que se não vindes até antão fazei de conta que parindo e vindo o marinhoto dou comigo lá que eu devo de parir para a páscoa não quisera estar sem vós vinde sem falta nenhuma não se vos dê de dinheiro que Deus não é de faltar que eu ainda não vendi nada do que me deixastes nem empenhei nem por isso me vai milhor só Deus sabe o que eu passo de dia cozo para comer de noute fio para quando parir e para pagar a camisa e outras miudagens de que vós sabias com o [licenciado] Leite já não tendes cousa nenhuma que o Castinheiro esteve preso em Basto até pagar antão dezia que vós que lhe fizestes uma assinado em casa do Chapéu Pardo de lhe dares mil réis agora já não fala nisso nem ele não sei aonde anda sempre que nunca o vejo a vosso compadre tendes muita obrigação porque em todas as [...] quando vos partistes e outro dia trazia-vos não sei quantos tostões quando vos não achou ficou morto por vós enquanto [...] o acho muito certo ele vos manda muitos recados e minha mãe os mesmos a vossa filha um abraço muito arroxado Jerónimo Luís muitos recados o Pirdigão muitos eu também vos mando um abraço ainda que vós mo não mandastes e vos peço muito que me não falteis com novas vossas duas cousas vos pido dessa cidade quando vos vieres que mas tragais uma pouca de cassa e uns corais que é cousa que muito desejo que bem sabeis a fim que os meus levaram e mais peço-vos muito como amigo que se tiveres portador certo que vos alembreis de mim que passo muitas necessidades e mais a vossa filha na cama vos fiz esta carta que me vai [...] muito mal já há muito tempo
Mais vos conto os muitos trabalhões que passei com o desembargador que estive arriscada a estar na cadeia antão falei a dous homes que falasse ò desembargador antão dei [testemunhos] como vós estavas ausente havia três meses meia vila está presa com esta alçada ficou culpado na morte do filho de Matias de Faria Davinde Miranda prenderam a mãe dos Feijoeiros Pedro da Costa o Negro e muitas forças fizeram por vós que se souberam aonde vós estavas lá houveram d'ir buscar-vos eu não quis dizer porque houve medo que não tornou a jurar só a vós procuraram ainda alçada aqui está isto acabado não sei em que há-de vir a parar que tão embrulhada está a vila a que Deus guarde como desjo não haja falta que me não escrevais todos os correios e procurai as minhas cartas desta vossa mulher Ilena da Costa


XVIII
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 224, Cadernos do Promotor, fls. 556r-557v, Cabeção, 1664. Carta do prior da igreja matriz do Cabeção comunicando aos Inquisidores de Évora a denúncia de um lavrador, acusado de haver formulado proposições heréticas. A carta ocupa as duas primeiras faces de uma folha inteira de papel dobrada.
Original

| 556r |

Aos noue dias do mes de Marsso
2
de i664 depois da pubilqua|m| sam de hüa
Carta de uossa senhoria denumsiou
4
diante de min ho pe. prior da matris
da uilla de Cabessam de Mel. friz.
6
barella Mel. dias gatam disendo que
indo elle dito Mel. dias gatam uigitar
8
ha Mel. friz. barella que estaua
doente de doenssa que Des. lhe deu
10
disera elle dito Mel. friz. barella La
uardor das mosteias tremo desta Villa de
12
Cabessam que lhe leuantaram hum
Aleiue a sua filha disendolhe
14
dito Mel. friz. barella que sua filha
estaua tam Virgem Como ha Virgem
16
nossa senhora antes do prato e sua molher
o reprhrendeo que não sabia o que di
18
sia e tronou afrimar despois de pala
uar dita que estaua tam uigem
20
Como ha uirgem nossa senhora
Antes do parto e depois do prato

| 556v |

e mais testemunhas bretolameu
2
ribro. morador na erda/de/ /de/ Samta Margua
rida e seu sogro joam leal Lauar
4
dor na mesma erdade e domingos
pais decalrou estas testemunhas
6
Lauardor da Machieira tremo
de Cabessam e mais hapontou
8
que disera joam leal indolhe
preguntar Dominguos pais se estaua bem uisto em huma palauar
10
que lhe disera seu gerno bertolameu
ribro. que daua mais por testimunhas
12
Gaspra uieira e anna uarella moradora nesta Villa de Cabessam

Edição

| 556r-v |

Aos nove dias do mês de Março de 1664 depois da publicação de uma carta de vossa senhoria denunciou diante de mim o padre prior da matriz da vila de Cabeção de Manuel Fernandes Varela Manuel Dias Gatão dizendo que indo ele dito Manuel Dias Gatão visitar a Manuel Fernandes Varela que estava doente de doença que Deus lhe deu dissera ele dito Manuel Fernandes Varela lavrador das Mosteias termo desta vila de Cabeção que lhe levantaram um aleive a sua filha dizendo-lhe dito Manuel Fernandes Varela que sua filha estava tão virgem como a Virgem Nossa Senhora antes do parto e sua mulher o repreendeu que não sabia o que dizia e tornou afirmar despois de palavra dita que estava tão virgem como a Virgem Nossa Senhora antes do parto e depois do parto e mais testemunhas Bertolameu Ribeiro morador na herdade de Santa Margarida e seu sogro João Leal lavrador na mesma herdade e Domingos Pais declarou estas testemunhas lavrador d'Ameixieira termo de Cabeção e mais apontou que dissera João Leal indo-lhe perguntar Domingos Pais se estava bem visto em uma palavra que lhe dissera seu genro Bertolameu Ribeiro que dava mais por testemunhas Gaspar Vieira e Ana Varela moradora nesta vila de Cabeção


XIX
ANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 306, Cadernos do Promotor, fl. 83r-v, Coimbra, 1683. Memorial contido em um quarto de folha de papel escrito por António Gomes Montenegro, meirinho do tabaco na comarca de Coimbra, cristão-velho, viúvo, de 30 anos, natural e morador em Coimbra. O documento fundamenta a sua denúncia relativa a Maria Antónia, ré da Inquisição, que terá dado uma série de indicações que o denunciante anotou para servirem na cura de um terceiro, António Jorge Torres, e seus três filhos (António, Escolástica e Gabriel). No memorial figura também um rol de peças de roupa dos doentes, peças que a ré também teria recebido.
Original

| 83r |

# de Anto. gorge tores humas luuas
2
# Anto. filho hu barrete
# e de esColatiCa filha hu Colete
4
de olanda q. leua huma
pita perta nas Costas
6
# e outor Colete da mema
olanda he de garuie filho
($)
as emsisimas de santo aborzio
2
e huma misa o esprito santo
e hu ofisio de des. pader
4
e huma bula de Compusição.
e logo na pia dauga benta
6
e ade di[???] huma misa as almas

(-)

8
Lauar tres dias Com auga benta
asim Como me lauo Com esta
10
auga benta de sagardo
ma dezato e deslego e

| 83v |

e deszenqualho e me
2
dezemfeitio pello poder
de deus e de são pedro e
4
são paulo e de são tiago
e ade tarzer o pescoso
6
hu piqueno de rogalgar
e erua bischa
($)
estão no liuor min[???]

Edição

| 83r-v |

Item de António Jorge Torres umas luvas
Item António filho um barrete
Item e de Escolástica filha um colete de holanda que leva uma pinta preta nas costas
Item outro colete da mesma holanda é de [Gabriel] filho [...] as [insígnias] de Santo Ambrósio e uma missa ò Esprito Santo e um ofício de Deus Padre e uma bula da composição e logo na pia d'auga benta e há-de dizer uma missa às almas
Lavar três dia com auga benta assim como me lavo com esta auga benta de sagrado m'adesato e deslego e desencalho e me [desenfeitiço] pelo poder de Deus e de São Pedro e São Paulo e de São Tiago e há-de trazer ò pescoço um pequeno de [rogal] e erva bicha [...] estão no livro [...]


XX
ANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 313, Cadernos do Promotor, fls. 223r-224v, São Martinho de Fornelo, Maia, Porto, 1689. Cartas do punho de Joana de Oliveira, enviadas para Inquisição pelo cura da freguesia de São Martinho de Fornelo, como prova de que a autora tinha culpas de feitiçaria. As cartas haviam sido entregues ao cura pelo seu destinatário, Inácio Francisco, oficial de calafate. Ocupam, cada uma das duas, a terceira face de meia folha de papel dobrada. Cf. edição interpretativa da primeira carta supra, cap. I, pp. 45-46.
Original

| 223r |

Snor estimarei que estas duas
2
reguas ache a V.ms. com pirfeita
saude cõforme eu pa. /min/ dezeio
4
eu com hela fico tanben deos lo
uuado pera tudo o que me orde
6
nar de seu s. sreviso snor. o que
me mandou preguntar por
8
joana do seus achaques ja o te
nho sauido o que tem feito ma
10
l a V.ms. qua acho que he seu pai
ele qua dis que lhe tem feito
12
mto. mal a mais a sua mai mas
que não he por sulpa sua se
14
não porque o deos asi quis por
que não tinha o tenpo acaba
16
do mas ja tem pouquo pera
conpirr o que pede a V.ms. que
18
não fasa mal a sua tia senão
que lhe fasa mto. ben tudo o que
20
pudre que pera amor diso lhe
da qua mta. pena por lhe roguar
22
mal e loguo lhe mande dizre
tres missas almas e te[?] es o espiri
24
to s. e tres a senhora e hüa no
uena a senhora dabadia e posto
// que V.ms. a tenha premetida pera si cunpra esta a outra
2
sua deixea pera outro ano e satisfazendo V.ms. tudo isto uaou
pera a uenturansa e de la pedirei a deos por V.ms. o qua dis
4
que lhe auia de pedir mais mas que V.ms. que não /pode/ aguora
como lhe des. der posses que se lembrarão dese cõ esto não
6
emfa mais a V.ms. qua me emtreguou joaña quoatrosentos
e sinquoenta que não foi mto des. ga. a V.ms.
8
tudo o que quizre de min respondame nas costas
desta
//

| 224r |

Snor. (.)
2
(*)
estimarei que V.ms. [?] e sua
4
boa saude comforme eu pa. min
dezeio eu com a que fico he bõ
6
pera tudo o que me ordenar
de seu sreuiso o que V.ms. me ma
8
ndou preguntar pela porta
dora do mal da sua mulhre qua
10
na minha reza achei que o mal
que lhe deu foi ar emtreor
12
cheguado outro ramo que ela
tem comsiguo o que he lhe
14
direi que [?] sua abo que se
chama ana domingues que
16
se predeo perdeo por dar
maos conselhos a hüa filho que
18
não tinha outro e lhe dar no
sogro e lhe [?] e mto mão trato e
20
qua confesa que matou a so
gra de V.ms. que por sinl se
22
chamaua frca. dominguos e V.ms.
querendo que lho degurade mo
24
mande dizre loguo pe/ra/ se sel
uar a si amais a sua menina q.
26
qua confesa que lhe tera morto
quoantos V.ms. tem auido
// E con sua mulher se não canse nem guaste nada porque
2
tem pouquo remedio que lhe acodio tarde aguora tudo
o que lhe pudre fazre tenha por sreto que o hei de fazre
4
e querendo V.ms. que lho degrade loguo mandemo dizre nas
costa desta qua me emtreguo a portadora tres mil e sento
6
e uinte cõ isto não emfado mais a V.ms. mto sreta pa. que ordenar
//

Edição

| 223r, 224r |

Senhor estimarei que estas duas réguas ache a vossa mercê com perfeita saúde conforme eu pera mim desejo eu com ela fico também Deus louvado pera tudo o que me ordenar de seu santo serviço senhor o que me mandou perguntar por Joana do seus achaques já o tenho sabido o que tem feito mal a vossa mercê [ca] acho que é seu pai ele [ca] diz que lhe tem feito muito mal a mais a sua mãe mas que não é por culpa sua senão porque o Deus assi quis porque não tinha o tempo acabado mas já tem pouco pera comprir o que pede a vossa mercê que não faça mal a sua tia senão que lhe faça muito bem tudo o que puder que pera amor disso lhe dá [cá] muita pena por lhe rogar mal e logo lhe mande dizer três missas almas e três ao Espírito Santo e três à Senhora e uma novena à Senhora da Abadia e posto que vossa mercê a tenha prometida pera si cumpra esta a outra sua deixe-a pera outro ano e satisfazendo vossa mercê tudo isto vou pera a aventurança e de lá pedirei a Deus por vossa mercê o [ca disse] que lhe havia de pedir mais mas que vossa mercê que não pode agora como lhe Deus der posses que se lembrarão desse com esto não enfado mais a vossa mercê [ca] me entregou Joana quatrocentos e cinquenta que não foi muito Deus guarde a vossa mercê tudo o que quiser de mim responda-me nas costas desta
Senhor
Estimarei que vossa mercê [...] sua boa saúde conforme eu pera mim desejo eu com a que fico é bom pera tudo o que me ordenar de seu serviço o que vossa mercê me mandou perguntar pela portadora do mal da sua mulher [cá] na minha reza achei que o mal que lhe deu foi ar interior chegado outro ramo que ela tem consigo o que é lhe direi que a sua avó que se chama Ana Domingues que se perdeu por dar maus conselhos a um filho que não tinha outro e lhe dar no sogro e lhe [...] muito mau trato e [ca] confessa que matou a sogra de vossa mercê que por sinal se chamava Francisca Domingos e vossa mercê querendo que lho degrade mo mande dizer logo pera se salvar a si amais a sua menina que [cá] confessa que lhe terá morto quantos vossa mercê tem havido e com sua mulher se não canse nem gaste nada porque tem pouco remédio que lhe acudiu tarde agora tudo o que lhe puder fazer tenha por certo que o hei-de fazer e querendo vossa mercê que lho degrade logo mande-mo dizer nas costas desta [ca] me entregou a portadora três mil e cento e vinte com isto não enfado mais a vossa mercê muito certa pera que ordenar


XXI
ANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 313, Cadernos do Promotor, fl. 358r-v, São Pedro do Sul, [1684-1691?]. Carta de denúncia do punho de Maria, "moça donzela e recolhida", moradora em São Pedro do Sul, sobre as suas relações com o padre Francisco Rodrigues de Abreu. A carta ocupa o rosto de meia folha de papel e, não estando datada, está arquivada entre documentos de 1691 e 1684.
Original

| 358r |

Com o Pe. frCo. Ros. de abreu morador em rriba feita Cogitor q. foi nesta
2
uilla de sam po. do Cul Com helle tiue huma amistade donde helle maginou
me porssoadiCe o q. não foi e isto se emtende fora da ConfiCam e he
4
lle me mandaua algumuss esCritos pera algumas Couzas q. queria q.
eu lhe fizese mas por algumas palavars que neles uinham emtendi
6
a eu que me porssoadia mas destes não faso mençam sendo de hüa
q. me deo em o ComfiCionario e não me lembra se vinha nele alguma
8
palauar semilhamte aos de fora da ConfiCam e isto digo a Cautela
por me não lembarr q. ha ters ou Coatorr annos Comigo paCou algu
10
mas palauars q. não pertendiam a ConfiCam e algumas famlaua eu
em serem auCiozas mas não deClaradas no mesmo ComfiCionario
12
e tomei tabaCo dos dedos e me parese me pegou em hü dedo e Como he
le me Custuma aCupar em algumas Couzas não Cei se seria o esCri
14
to pa. as tais Couzas ou se leuaria algumas mas palauars mistura
das e disto fis esCupulo e isto fasso pera resguardo de minha
16
Caluasam tambem porzomi que outra pesoa falaua Com hele em o
mesmo ConfiCionario porem não Cei o que diziam senão por Cospeita
18
q. tinha e por huma palauar q. esta pesoa me deo a emtender porem
não ma deClarou o que hera
20
(*)
e eu Cou mosa donzela e reColhida de bomos porsodimentos
22
Maria filha de iozeph da RoCha e maria de gouuea de
São Po. do Cul

Edição

| 358r |

Com o padre Francisco Rodrigues de Abreu morador em Riba Feita coadjutor que foi nesta vila de São Pedro do Sul com ele tive uma amistade donde ele maginou me persuadisse o que não foi e isto se entende fora da confissão e ele me mandava alguns escritos pera algumas cousas que queria que eu lhe fizesse mas por algumas palavras que neles vinham entendia eu que me persuadia mas destes não faço menção sendo de uma que me deu em o confessionário e não me lembra se vinha nele alguma palavra semelhante aos de fora da confissão e isto digo à cautela por me não lembrar que há três ou quatro anos comigo passou algumas palavras que não pretendiam à confissão e algumas falava eu em serem [audaciosas] mas não declaradas no mesmo confessionário e tomei tabaco dos dedos e me parece me pegou em um dedo e como ele me costuma acupar em algumas cousas não sei se seria o escrito pera as tais cousas ou se levaria algumas más palavras misturadas e disto fiz escrúpulo e isto faço pera resguardo de minha salvação também presumi que outra pessoa falava com ele em o mesmo confessionário porém não sei o que diziam senão por suspeita que tinha e por uma palavra que esta pessoa me deu a entender porém não ma declarou o que era
E eu sou moça donzela e recolhida de bons procedimentos Maria filha de José da Rocha e Maria de Gouveia de São Pedro do Sul


XXII
ANTT, Inquisição de Coimbra, liv. 314, Cadernos do Promotor, fls. 211r-v, [Sendim?], 1691. Carta familiar escrita a seu pai por uma personagem incógnita, da qual se conhece apenas o nome próprio, Manuel. Está contida em meia folha de papel dobrada, com o texto nas duas primeiras faces e o sobrescrito na última.
Original

| 211r, Sobrescrito |


a Meu senhor

2
Pai que sua uita
bem deseia E a
4
ma
[Texto epistolar] meu pai
($)
Eesttimarei que hestas duas re
2
guas ho aChe Com saude Como
pera mi deseio he Companhi
4
de meus hirmaus he da mais
gente de Casa heu fiquo Com
6
saude garCas seiam dadas
a deos pero mas pai nam
8
ttënha pena {.} por mi porque
ha mi {...} nam me faltara
10
a mereCe de deos a meu hir
man felipe me le dara mutos
12
reCados e a minha hirmam
barnqua he a matias he a
14
he a maria he ana a todos
mutos reCados Com garndes
16
deseio de os uer e Com histo
nam os hefado mais deos
18
nos /liuer/ de quem nos mal que
r deste seu filho que sua
20

(&)

// e ama manoel na/m/ se saia de sua Casa nem he
[&]

2
nimgem por/que/ oie estou aqui maali heses rapazes
demele mutos reCados he tenhame Conta Com e
[&]

4
que deos lho paguara que heu nam sei que/m/ fiquou
niquem nam he nam tenha pena por mi porque
6
hen samdim
//

| 211v |

me deram Camisa me lauaram a que
2
teha diego de samdim lhe dira donde
fiquo {eCa} heu fiquo muto ualente oie
4
dia sam dedo[?] do ano d mil 691 ad.

Edição

| 211rv |

A meu senhor pai que sua vida bem deseja e ama
Meu pai
Estimarei que estas duas réguas o ache com saúde como pera mi desejo em companhia de meus irmãos e da mais gente de casa eu fico com saúde graças sejam dadas a Deus pero mas pai não tenha pena por mi porque a mi não me faltará a mercê de Deus a meu irmão Felipe me le dará muitos recados e a minha irmã Branca e a Matias e a e a Maria e Ana a todos muitos recados com grandes desejo de os ver e com isto não os enfado mais Deus nos livre de quem nos mal quer deste seu filho que sua [...] e ama Manuel não se saia de sua casa nem [...] ninguém porque hoje estou aqui mal esses rapazes dê-me-le muitos recados e tenha-me conta com [...] que Deus lho pagará que eu não sei quem ficou [nem] quem não é não tenha pena por mi porque em Sandim me deram camisa me lavaram a que [tinha] Diego de Sandim lhe dirá donde fico e cá eu fico muito valente hoje dia de São [...] do ano de mil 691 anno domini


XXIII
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 243, Cadernos do Promotor, fls. 62r-v, Montargil, 1694. Carta particular enviada a Maria de Simas, mulher de João Álvares, ferreiro e caldeireiro, escrita por Antonio da Costa, que denuncia à destinatária culpas de bigamia atribuídas a seu marido. A carta ocupa primeira face de meia folha de papel dobrada e tem o sobrescrito na última. Cf. edição interpretativa supra, cap. I, p. 53.
Original

| 682r |

Senhora maria de simass
2
(*)
a boa saude de Vm. estima
4
rei em Companhia do senhor
seu jirman eu fico de sau
6
de deos louuado pera o q.
for de seu se|e| ruiso senhora
8
em minha quaza esteue
{o seu marido} o me|.|ster
10
que teue o seu marido
em sua Caza em euora a
12
pirmeira ues que se foi {.} a
guora esta quazado
14
em borbara e me dixe que
tinha ja dois filhos asim
16
que pode V.m. por Cobor sober
hiso e pelo portador estar
18
de persa não emfado ma
[?] Vm. momte argil
// a 24 dias do mes de aguosto de i694 @ des
2
te seu Cirado Antonio da Costa
//

// A senhora maria de
2
simas a quem deos
gd.
4
(*)
no marmileiro
//

Edição

| 682r |

Senhora Maria de Simas
A boa saúde de vossa mercê estimarei em companhia do senhor seu irmão eu fico de saúde Deus louvado pera o que for de seu serviço senhora em minha casa esteve o mestre que teve o seu marido em sua casa em Évora a primeira vez que se foi agora está casado em Bórbara e me dixe que tinha já dois filhos assim que pode vossa mercê pôr cobro sobre isso e pelo portador estar de pressa não enfado mais vossa mercê Monte Argil a 24 dias do mês de Agosto de 1694 deste seu criado António da Costa
À senhora Maria de Simas a quem Deus guarde
No Marmeleiro


XXIV
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 246, Cadernos do Promotor, fls. 258r-260r-v, Quintos-Beja, 1698. Carta de denúncia escrita por Francisco Rodrigues Preposito, mestre de meninos, morador na aldeia de Quintos, de 62 anos. Foram endereçadas ao capitão João Gago Raposo, familiar do Santo Ofício, mas apenas se transcreve a primeira, que ocupa as duas primeiras faces de meia folha de papel dobrada, e tem o sobrescrito na última.
Original

| 258r |

Senor. Capittãm Joãm gago Rapozo
2
meu Amo e senor.
esttimarei que Vm. logre ttãm per
4
feitta saude Como Vm. dezeia
nouas destte seu Criiado sãm es
6
ttar emCapas de lhe ir beigar
as maus Como hera minha obri
8
gasãm senor. sabera Vm. que se
mdo em quimtta feira do Core
10
mtte 17 ueio hum homen A mi
nha Caza meu amigo por nome
12
Joãm balttistta que foi boiero
estte ano de nouittel de Campos
14
e uimdo o homen frio e fora de seu
emttemdimentto do Cauzo que
16
lhe auia aComttesido eu lhe per
gumttei que tinha hele me Res
18
pomdeo que se eu lhe gardase
hum segredo que hele me diria
20
a uerdade que hum boiero que
ttiuerãm o ano pasado aprem
22
dera muittas Couzas que hele e os
seus nãm Comiãm Couza que xhe
24
gase a fogo por gardarem a sua
lei e que nos que uiuiiams nu
26
m[.] Rudeza porque serauam
hum pao e que adorauamos
28
nese que nos iamos Comfesar

| 258v |

A hum peCador maior que nos
2
e que hir a misa que hera hir
houuir saramuniar hum
4
Crerigo e que ttomauãm hum
boCado de pãm que faziiãm
6
huma osttia e que deziiãm
que esttaua Ali deos ttãm
8
perfeittamntte Como
estta nos alttos seos que ttu
10
do histto hera huma patta
ratta por Vm. ser quem he
12
e ser familiar do samtto
ofisio auezo a Vm. Como quem
14
sempre foi o asotte de tto
dos heles e ser Couza Com
16
ttra a nosa samtta fe estte
homen xhamase Rudrigo
18
Roiz. portto filho de noitte[?]
de Campos, Deos gDe. a {.}
20
Vm. destte seu Criiado
frCo Roiz. perpozitto feitta
22
hoie
do Coremtte de
24
698

| 260v |

Ao snor. Capi
2
ttãm Joãm
gago Rapo
4
zo meu amo
e senor. gde.
6
Ds.
esettra

Edição

| 258r-v, 260v |

Senhor capião João Gago Raposo meu amo e senhor
Estimarei que vossa mercê logre tão perfeita saúde como vossa mercê deseja novas deste seu criado são estar incapaz de lhe beijar as mãos como era minha obrigação senhor senhor saberá vossa mercê que sendo em quinta-feira do corrente 17 veio um homem a minha casa meu amigo por nome João Baltista que foi boieiro este ano de Novitel de Campos e vindo o homem frio e fora de seu entendimento do causo que lhe havia acontecido eu perguntei que tinha ele me respondeu que se eu lhe gardasse um segredo que ele me diria a verdade que um boieiro que tiveram o ano passado aprendera muitas cousas que ele e os seus não comiam cousa que chegasse a fogo por gardarem a sua lei e que nós que vivíamos numa rudeza porque serravam um pau e que adorávamos nesse que nos íamos confessar a um pecador maior que nós e que ir à missa que era ir ouvir ceremoniar um créligo e que tomavam um bocado de pão que faziam uma hóstia e que deziam que estava ali Deus tão perfeitamente como está nos altos céus que tudo isto era uma patarata por vossa mercê ser quem é e ser familiar do santo ofício aviso a vossa mercê como quem sempre foi o açoute de todos eles e ser cousa contra a nossa santa fé este homem chama-se Rodrigo Rodrigues Porto filho de [Novitel] de Campos, Deus guarde a vossa mercê deste seu criado Francisco Rodrigues prepósito feita hoje do corrente de 698
Ao senhor capitão João Gago Raposo meu amo e senhor guarde Deus etc.


XXV
ANTT, Inquisição de Lisboa, liv. 265, Cadernos do Promotor, fls. 230r-233v, Leiria, 1699. Carta de denúncia, escrita em seis faces de duas folhas inteiras de papel dobradas, da mão de Vicência do Rosário, relatando factos passados em Leiria três anos antes.
Original

| 230r |

em o mes de setenbor ou outubor de seis sentos
2
nouenta e seis (.)
me susedeu por causa duma doensa q. tiue
4
ter hüa pouca de roupa suiia e pela querer
guardar andaua pirsiguindo a lauandeira q.
6
ma lauase antes q. emtarse o jnuerno e
ela me disia que não achaua sïnsa q. pidise
8
eu a minha forneira q. ma uendese e q. logo
ma lauaria eu uendo isto por não ter cir
10
ada q. mandase e ser uso no meu bairo
hirem as uisinhas em casa hüas das outars
12
com libardade fui eu hü dia as tirndades
com hü pausinho na mão a casa da forne
14
ira diserãome q. estaua na eira q. esta a
tars da parede das casas fui la ter com ela
16
acheia asentada a par dum monte de ispi
gas de milho com hüa minina q. tinha de
18
poucos meses mitida na saia eu asentej
me a par dela q. fasia mto. luar alj istiue
20
mos falando hü pouco e eu disendo q. quiria
me uendese hüa pouca de sinsa pa. man
22
dar lauar hüa pouca de roupa e hüns
colxois antes q. chouese ela dise q. não ma
24
pudia dar aqueles dias porq. lha tinham
pidido mtas. pesoas rogueilhe mto. q. uise se ma
26
pudia dar se[.]uer ate sesta fra. mas o dia
em q. falej não me lenbar e hü dia dis
28
pois q. falej com ela ouui diser q. lhe more
ra aquela ciransa q. lha matarão as {bu}
30
burxas tambem me não lembar [...]

| 230v |

qual dos dias foi q. moreo a ciransa
2
q. como hera hü anginho nehü caso fis
daquilo q. oouui mas o q. he serto q. tudo foi
4
dentor em hüa somana e como ela fico comi
go de faser mto. por me dar a sinsa ou pouca ou mta.
6
a sesta fra. qdo. ueio á sesta fra. pela minhã fui
eu resando ate o forno pa. saber se me auia de
8
dar a sinsa q. me tinha pormetido emteri na
casa do forno uio andar ardendo e não estaua
10
la gente tornei a sair pa. fora estaua no pa
tio hüu omen tarbalhando coisa de carpenta
12
ria ou de carro ou de arado pirgunteilhe quede
esta molher respondeome não sei dise eu e pois
14
quem asendeo o forno respondeome ahi o uierão
asender mas não me dise quem nem a min me
16
emporto pirguntalo porq. eu não quiria senão
a forneira e pareseome q. uiria algüa uisinha
18
largarlhe o lume em q. ela uinha fiquei no
patio parada de fr{..}te doutar porta sua q. es
20
taua fichada disendo eu ualhame des. agora
se foi esta molher q. eu quiria falar com ela
22
uirose o omen pa. min e diseme de manso q. esta
ua naquela casa q. eu uia fichada dise eu
24
se a porta esta fichada tornome a diser q. la
estaua eu sem reparar se estaua a porta
26
fichada por dento ou por fora ui q. estaua
hüa goteira q. tem a porta tapada com hü
28
rolham de pano pardo pareseme q. istaria
tapada por lhe não irem la gatos dise o omem
30
se hira ela a fasenda respondeome q. não q. la
estaua mas de mansinho asenando com a ca

| 231r |

asenando com a cabesa como quem não quiria
2
q. ela o ouuise diser adonde estaua fui eu
chegando pa. a porta antão ui q. estaua fi
4
chada por dentor bati nõ me falaram
uirei pa. o omen e disse parese q. não esta ca
6
q. não fala tornome asenar com a cabe
sa q. la estaua eu bati outar ves ueio
8
hüa jntiada q. tem abiru a porta diselhe
eu [???] vosa mai respondeo ali esta dise
10
selhe eu diseilhe se me da oje a sinsa q. me
pormeteo ela sem ir dar o recado me di
12
se muito tirste e atirbulada uenha Um. ca
dentor eu não fui ligeira em emtar ela
14
tornou a ripitir uenha sra. uenha ca den
tor qdo. eu a ui tão atirbulada e a modo de q.
16
estaua em algü aperto pirsumi q. a madars
ta lhe quiria dar e q. ela me quiria la pa.
18
inpidir ou acudir emteri na casa onde
ia tinha amtardo hüa ues ela foime le
20
uando mais dentor a outar casinha pa. donde
eu nunca tinha emtardo mas não pasei da
22
porta e dali dei com os olhos em hüa fuguei
ra q. tinha em sima hüa caldeira ou
24
taixo e ela na mão hüu pao ou culher
guarnde com q. estaua mexendo o q. esta
26
ua dentor ui hüa coisa dinigurda q. me
pareu q. estaua cosendo miadas como fasen
28
alguas mulheres q. curão fiado mas se era
caldeira ou taxo não curarei nem se era
30
pao ou culher com q. estaua mexendo por
qto. a detensa foi berue e eu não cheguei
32
la perto mas [...] fee q. estaua cosendo miadas

| 231v |

miadas qdo. a ui antes de falar na sinsa q. me ti
2
nha purmitida dise eu cõsta uisinha q. lhe
moreo a sua minina ora de mtas. garsas a des.
4
q. lhe fes ese anio no seu inda lhe hia di
sendo mais mas ela não me deu lugar por
6
q. logo dise e quem ma mato a min aqui estou
fasendo isto pa. saber quem ma mato qdo.
8
eu oui isto lenborme q. disem q. as molhes
a quem as burxas matão ciransa q. pa. saberë
10
quem foi a burxa q. se feixão em hüa casa
com todos os buracos e guerts mto. bem tapados
12
e no lume hüa caldeira com os cueiros da
ciransa a ferver e q. ali dentor com tudo
14
mto. bem tapado lhe aparese a burxa fei
ta molhe eu não cira q. auia quem tal fi
16
sese porq. parese coisa feita pelo djabo
de q. des. me liver mas qdo. eu lhe ouui diser
18
aqui estou fasendo isto pa. saber quem ma
mato fiquei pasmada dise eu santisimo
20
nome de [???] mulher comfesaste diso
respondeome como q. me aremesaua emfada
22
da mulher comfesaste e quem me fas mal
comfesasa dise eu pois quem fas mal o pa
24
gara ou no inferno ou onde des. ordenar
mas faser hiso he pecado respondeu
26
me mto. agastada se he pecado quero fase
lo e Um. quem a mandaua agora ca uir q.
28
ueio ca faser uase embora isto mto. agasta
da eu antão me tirei de min coisa contar
30
o meu natural como se sabe e lhe dise á
sim eu uos pormeto q. eu o diga e uirei
32
pa. o omen q. estaua no patio e diselhe e uose
lemberlhe o q. ouiu pa. qualquer tenpo
34
q. lho pirguntarem o omen respondeome

| 232r |

o sra. milhor he não falar niso q. aqui
2
lo mtos. fasem eu lhe dise se o fasem eu
numiarei a ela ela dira quem lho in
4
sino (.) qdo. fui comfesarme comt[.]i tudo
isto ao comfesor ele não me [...]
6
fisera mto. caso disto comtudo diseme hi
so hase de diser la onde se dis mas
8
não me dise adonde nem me dise ma
is palauar algüa sober isto asim me
10
pareseo q. o caso não era tão feio como eu
cudava com q. fiquei por mto. tempo quieta na
12
comsiensia e dipois tiue emfados e ocupa
são ters pa. quator meses com [...] pirgo
14
so com q. não me comfesei mto. tenpo dispo
is q. aquietei na minha roca e almofada
16
lenborme isto e comesei a formar excur
curpulo naquela palauar qdo. o comfesor
18
me dise hiso hase de diser la onde se dis
se naquilo me mandaria q. o disese e eu
20
q. não sabia aonde nem o pirguntara
nunca fis perposito de me tornar a cõ
22
fesarme disto fui buscar o parico e di
sendolhe isto diseme pare com a comfi
24
são q. não poso a[.]olver hiso ua buscar
hü apostolo q. so eles tem poderes pa. hiso
26
e contelhe o caso todo na uerdade filo eu
asim diseme q. me asoluia pelos poderes q. ti
28
nha mas com condisão q. auia eu de dar con
ta ao cumisairo do sto. ofisio eu dise q. não
30
sabia quë era disem[.] a outor comfesor

| 232v |

q. tinha obirgasão de auisar disto q. o
2
fose buscar e lhe dese conta eu o fis asim e e
le me dise q. auia pouco q. uiera pa. a terra
4
q. não sabia quem era o cumisairo mas
[...] pirguntaua se lha daua lisensa
6
[...] comsultar o caso com outar pesoa eu
lha dei e tambem o parico me pidiu
8
a mesma lisensa e anbos me auisaram
q. estaua obirgada a dar conta e como se a
10
cho q. o cumisairo não moraua na tera
me resolui obirgada de quator comfe
12
sores a tomar isto por papel pa. o dar a qual
quer deles q. o dem adonde pertenser
14
(*)
a molher q. me dise estaua fasendo aquilo pa.
16
saber quem lhe mato a ciransa chamase
domingas careira a intiada q. ueio abir a por
18
ta q. bati chamase ma. e o omen q. estaua no
patio e me dise onde ela estaua chamase
20
domingos gaspar e isto susedeo no cabo da
rua dos bareiros por sima da fonte gde. na sidade
22
de lra.
(*)
24
(*)
Uisensia do rosairo

Edição

| 230r-232v |

Em o mês de setembro ou outubro de seiscentos noventa e seis me sucedeu por causa duma doença que tive ter uma pouca de roupa suja e pela querer guardar andava perseguindo a lavandeira que ma lavasse antes que entrasse o inverno e ela me dizia que não achava cinza que pedisse eu à minha forneira que ma vendesse e que logo ma lavaria eu vendo isto por não ter criada que mandasse e ser uso no meu bairro irem as vizinhas em casa umas das outras com liberdade fui eu um dia às trindades com um pauzinho na mão a casa da forneira disseram-me que estava na eira que está atrás da parede das casas fui lá ter com ela achei-a assentada a par dum monte de espigas de milho com uma menina que tinha de poucos meses metida na saia eu assentei-me a par dela que fazia muito luar ali estivemos falando um pouco e eu dizendo que queria me vendesse uma pouca de cinza para mandar lavar uma pouca de roupa e uns colchões antes que chovesse ela disse que não ma podia dar aqueles dias porque lha tinham pedido muitas pessoas roguei-lhe muito que visse se ma podia dar sequer até sexta-feira mas o dia em que falei não me lembra e um dia despois que falei com ela ouvi dizer que lhe morrera aquela criança que lha mataram as bruxas também me não lembra [...] qual dos dias foi que morreu a criança que como era um anjinho nenhum caso fiz daquilo que ouvi mas o que é certo que tudo foi dentro em uma semana e como ela ficou comigo de fazer muito por me dar a cinza ou pouca ou muita à sexta-feira quando veio à sexta-feira pela menhã fui eu rezando até o forno para saber se me havia de dar a cinza que me tinha prometido entrei na casa do forno vi-o andar ardendo e não estava lá gente tornei a sair para fora estava no pátio um homem trabalhando coisa de carpintaria ou de carro ou de arado perguntei-lhe quede esta mulher respondeu-me não sei disse eu e pois quem acendeu o forno respondeu-me aí o vieram acender mas não me disse quem nem a mim me importou perguntá-lo porque eu não queria senão a forneira e pareceu-me que viria alguma vizinha largar-lhe o lume em que ela vinha fiquei no pátio parada de frente doutra porta sua que estava fechada dizendo eu valha-me Deus agora se foi esta mulher que eu queria falar com ela virou-se o homem para mim e disse-me de manso que estava naquela casa que eu via fechada disse su se a porta está fechada tornou-me a dizer que la estava eu sem reparar se estava a porta fechada por dentro ou por fora vi que estava uma goteira que tem a porta tapada com um rolhão de pano pardo parece-me que estaria tapada por lhe não irem lá gatos disse [ao] homem se irá ela à fazenda respondeu-me que não que lá estava mas de mansinho acenando com a cabeça como quem não queria que ela o ouvisse dizer adonde estava fui eu chegando para a porta antão vi que estava fechada por dentro bati não me falaram virei para o homem e disse parece que não está cá que não fala tornou-me acenar com a cabeça que lá estava eu bati outra vez veio uma enteada que tem abriu a porta disse-lhe eu [...] vossa mãe respondeu ali está disse-lhe eu dizei-lhe se me dá hoje a cinza que me prometeu ela sem ir dar o recado me disse muito triste e atribulada venha vossa merçê cá dentro eu não fui ligeira em entrar ela tornou a repetir venha senhora venha cá dentro quando eu a vi tão atribulada e a modo de que estava em algum aperto presumi que a madrasta lhe queria dar e que ela me queria lá para impedir ou acudir entrei na casa onde já tinha entrado uma vez ela foi-me levando mais dentro a outra casinha para donde eu nunca tinha entrado mas não passei da porta e dali dei com os olhos em uma gogueira que tinha em cima uma caldeira ou tacho e ela na mão um pau ou colher grande com que estava mexendo o que estava dentro vi uma coisa denegrida que me pareceu que estava cozendo meadas como fazem algumas mulheres que curam fiado mas se era caldeira ou tacho não jurarei nem se era pau ou colher com que estava mexendo por quanto a detença foi breve e eu não cheguei lá perto mas [...] fé que estava cozendo meadas quando a vi antes de falar na cinza que me tinha prometida disse eu consta vizinha que lhe morreu a sua menina ora dê muitas graças a Deus que lhe fez esse anjo no céu inda lhe ia dizendo mais mas ela não me deu lugar por que logo disse e quem ma matou a mim aqui estou fazendo isto para saber quem ma matou quando eu ouvi isto lembrou-me que dizem que as mulheres a quem as bruxas matam criança que para saberem quem foi a bruxa que se fecham em uma casa com todos os buracos e gretas muito bem tapados e no lume uma caldeira com os cueiros da criança a ferver e que ali dentro com tudo muito bem tapado lhe aparece a bruxa feita mulher eu não cria que havia quem tal fizesse porque parece coisa feita pelo Diabo de que Deus me livre mas quando eu lhe ouvi dizer aqui estou fazendo isto para saber quem ma matou fiquei pasmada disse eu santíssimo nome de [...] mulher confessaste disso respondeu-me como que me arremessava enfadada mulher confessaste e quem me faz mal confessava disse eu pois quem faz mal o pagará ou no inferno ou onde Deus ordenar mas fazer isso é pecado respondeu-me muito agastada se é pecado quero fazê-lo e vossa mercê quem a mandava agora cá vir que veio cá fazer vá-se embora isto muito agastada eu antão me tirei de mim coisa contra o meu natural como se sabe e lhe disse ah sim eu vos prometo que eu o diga e virei para o homem que estava no pátio e disse-lhe e você lembre-lhe o que ouviu para qualquer tempo que lho perguntarem o homam respondeu-me oh senhora melhor é não falar nisso que aquilo muitos fazem eu lhe disse se o fazem eu nomearei a ela ela dirá quem lho ensinou quando fui confessar-me contei tudo isto ao confessor ele não me [...] fizera muito caso disto contudo disse-me isso há-se de dizer lá onde se diz mas não me disse adonde nem me disse mais palavra alguma sobre isto assim me pareceu que o caso não era tão feio como eu cuidava com que fiquei por muito tempo quieta na consciência e depois tive enfados e ocupação três para quatro meses com [...] perigoso com que não me confessei muito tempo despois que aquietei na minha roca e almofada lembrou-me isto e comecei a formar escrúpulo naquela palavra quando o confessor me disse isso há-se de dizer lá onde se diz se naquilo me mandaria que o dissesse e eu que não sabia aonde nem o perguntara nunca fiz prepósito de me tornar a confessar-me disto fui buscar o pároco e dizendo-lhe isto disse-me páre com a confissão que não posso absolver isso vá buscar um apóstolo que só eles tem poderes para isso e conte-lhe o caso todo na verdade fi-lo eu assim disse-me que me absolvia pelos poderes que tinha mas com condição que havia eu de dar conta ao comissário do santo ofício eu disse que não sabia quem era [...] a outro confessor que tinha obrigação de avisar disto que o fosse buscar e lhe desse conta eu o fiz assim e ele me disse que havia pouco que viera para a terra que não sabia quem era o comissário mas [...]perguntava se lhe dava licença [...] consultar o caso com outra pessoa eu lha dei e também o pároco me pediu a mesma licença e ambos me avisaram que estava obrigada a dar conta e como se achou que o comissário não morava na terra me resolvi obrigada de quatro confessores a tomar isto por papel para o dar a qualquer deles que o dem adonde pertencer
A mulher que me disse estava fazendo aquilo para saber quem lhe matou a criança chama-se Domingas Carreira a enteada que veio abrir a porta que bati chama-se Maria e o homem que estava no pátio e me disse onde ela estava chama-se Domingos Gaspar e isto sucedeu no cabo da rua dos Barreiros por cima da fonte grande na cidade de Leiria
Vicência do Rosairo


XXVI
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 249, Cadernos do Promotor, fls. 306r-v, Vale de Santiago - Panóias, [1700]. Carta de denúncia não datada, arquivada entre documentos de 1700, assinada por João Pereira, provavelmente barbeiro (é o que se depreende do texto da denúncia). A carta ocupa a primeira face de meia folha de papel dobrada e tem o sobrescrito na terceira face.
Original

| 306r |

Aos dezaseis dias do mes de nouen
2
bor ueio manoel gonsalu{ez} mora
dor na erdade do carualha a fazer
4
a barba preguntadolhe pela
symentera d[.]se [?] amiava lyn
6
lhos e dizendolhe q. mtas. pesoas
aueram pedir q. lhe samiase ele
8
dixe q. mtas. o ano pasado samia
ra m mas não se agabariam
10
de outra eu lhe dise q. saria pelo
amor de deos ele dise q. leuase
12
diabo tamto amor de deos este ca
zo asosedeo auera des anos e por não
14
sabre comfesyme dyse comfesor
q. estaua brigado a fazelo a sabr
16
e hum Comisario do santo ofisyo
(.) joão pra (.)

| 306v |

Ao mtos. rauerem
2
/do/ pe. prior de pano
yas uai do uale
4
de santiago a[?]
comisario do samto ofi
6
sio

Edição

| 306r-v |

Aos dezasseis dias do mês de novembro veio Manuel Gonçalves morador na herdade do Carvalha a fazer a barba preguntando-lhe pela sementeira disse semeava linhos e dizendo-lhe que muitas pessoas [houveram] pedir que lhe semeasse ele disse que muitas o ano passado semearam mas não se agabariam de outra eu lhe disse que seria pelo amor de Deus ele disse que levasse Diabo tanto amor de Deus este caso assucedeu haverá dez anos e por não saber confessei-me disse confessor que estava obrigado a fazê-lo a saber [a] um comissário do santo ofício João Pereira
Ao muito reverendo padre prior de Panóias vai do Vale de Santiago ao comissário do santo ofício


XXVII
ANTT, Inquisição de Évora, liv. 250, Cadernos do Promotor, fls. 225r-226v, Évora, [1701]. Carta de denúncia não datada, arquivada entre documentos de 1701, assinada por Pedro Antunes e enviada da cadeia pública para os inquisidores de Évora. Ocupa a primeira e a terceira face de meia folha de papel dobrada.
Original

| 225r |

// Meus senhores enqui
2
zidores
//

Eu dezemcarego a mi
2
nha conciencia e em
carego a de uosas se
4
nhorias em esta cade
a de euora estata
6
hum home por nome ma
noel da silua o qual
8
fala {.} rezois q. me
parese competem a san
10
ta enquisica|m| õ na mi
nha conciencia por
12
iso dou conta a uosas
senhorias (.)
14
(*)
Senhores em esta cade
16
a de euora se costuma
todos os dias a noite ra
18
zarse a ladainha de
nosa senhora e no ca
20
bo dela se pedem padre
nosos e aueis marias
22
a morte paixam de
noso senhor jesus cris
24
to e a nosa senhora e
pelas almas do pru
26
gatorio e outras de
uasois entre elas se
28
pede hum padre no
so en louu[.]r de sam

| 226r |

joão baltista q. pesa
2
a deos por nos q. nos de
j saude na alma e
4
no corpo este manoel
da cilua tem respon
6
dido muntas uezes
quando se pede este pa
8
dre /noso/ e esta aue maria
em louuor de sam jo
10
ão balptista dizen
do q. o diabo lhe leue
12
alma se ele a sam jo
ão balptista razar
14
por ter sido duas ue
zes prezo no seu dia
16
q. se sahir pera fora
que o hade esquarti
18
gar com huma al
fanga e que se for de
20
pao caruxo{.} jo que bo
tara tanta fumasa
22
que não digo nada is
to tem dito muntas ue
24
zes a modo de que esta
escarniando e disto
26
saram testemunhas
// os prezos polinario de andarde an{.} tonio martis
2
manoel farcisco luis da roxa farcisco mar
ques joão farcisco q. dis q. lhe tem ouuisto irigi
4
as enquanto esteue no segredo com ele juze da {.}
cilua domingos farnamdes e todos os mais pre
6
zos antigos manoel martis araolhos andre cardim
(*)
8
(.) Pedro Antunes (.)
//

Edição

| 225r, 226r |

Meus senhores inquisidores
Eu desencarrego a minha consciência e encarrego a de vossas senhorias em esta cadeia de Évora está um homem por nome Manuel da Silva o qual fala rezões que me parece competem à santa inquisição na minha consciência por isso dou conta a vossas senhorias
Senhores em esta cadeia se Évora se costuma todos os dias à noite rezar-se a ladainha de Nossa Senhora e no cabo dela se pedem Padre-Nossos e Ave-Marias à morte paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e a Nossa Senhora e pelas almas do purgatório e outras devações entre elas se pede um Padre-Nosso em louvor de São João Baltista que peça a Deus por nós que nos dê saúde na alma e no corpo este Manuel da Silva tem respondido muitas vezes quando se pede este Padre-Nosso e esta Ave-Maria em louvor de São João Baltista dizendo que o Diabo lhe leve a alma se ele a São João Baltista rezar por ter sido duas vezes preso no seu dia que se sair pera fora que o há-de esquartejar com uma alfanja e que se for de pau carunchoso que botará tanta fumaça que não digo nada isto tem dito muitas vezes a modo de que está escarneando e disto serão testemunhas os presos Polinário de Andrade António Martins manuel Francisco Luís da Rocha Francisco Marques João Francisco que diz que lhe tem ouvisto heregias enquanto esteve no segredo com ele José da Silva Domingos Farnandes e todos os mais presos antigos Manuel Martins Arraolhos André Cardim
Pedro Antunes

Códigos de Edição

{.} sinal ilegível por cancelamento
{...} trecho ou palavra ilegível por cancelamento
[.] sinal ilegível por deterioração do material
[...] sinal ilegível por deterioração do material
[?] sinal de difícil leitura
[???] vocábulo de difícil leitura
(.) branco superior ao espaco entre palavras e inferior à largura da linha
(*) linha em branco
(&) linha escondida pela encadernação
[&] linhas escondidas pela encadernação
($) seção em branco
(-) linha cancelada
(~) trecho manchado
{texto} trecho ou palavra cancelados
|texto| trecho coberto por segunda camada gráfica
/texto/ texto escrito na entrelinha
//texto// texto escrito na margem
(texto) texto de outra caligrafia

Normas de Transcrição e de Edição estabelecidas pelo editor do texto-fonte


NORMAS DE TRANSCRIÇÃO

A transcrição é conservadora e, na medida do possível, fiel às particularidades gráficas das formas originais. A maior concessão a normalizações consistiu na regularização dos brancos, decidida porque a hipersegmentação que caracteriza muitos dos textos dificultava bastante a leitura. Mas o modelo seguido na imposição de brancos entre as palavras não foi o da ortografia portuguesa contemporânea; seguiram-se antes os modelos coevos destes manuscritos, os quais, por exemplo, aglutinavam graficamente os pronomes enclíticos aos verbos de que dependiam (trancreveu-se, assim, Cospialhe e não "Cospia-lhe", Chamase e não "Chama-se"); a longa sobrevivência desta solução aglutinadora na história gráfica portuguesa justifica a escolha feita, já que se deseja respeitar o ambiente gráfico em que os textos foram produzidos. Para além disso, não se impuseram apóstrofos em casos de contracção, optando-se pela transcrição aglutinada (ex: mëconmendaCe em vez de "m'ëConmendaCe", fasa mecer em vez de "fas'a mecer", que correspondia a "face à mercê"). Outra normalização abrangeu a variação alográfica. Em fonética e fonologia históricas basta respeitar as escolhas grafémicas. Uma vez identificado o sinal gráfico dentro do elenco dos símbolos alfabéticos (maiúsculos ou minúsculos) e dos não alfabéticos, as variações físicas do cursivo deixam de ser pertinentes. As abreviaturas conservaram-se na transcrição mas, dada a dificuldade de reprodução mecânica de muitos traços manuscritos, foi necessário substituir os sinais de abreviatura por símbolos convencionais, independentes de qualquer variação. Assim, as abreviaturas alfabéticas foram sempre transcritas acompanhadas de ponto final (ex: pa. corresponde a "pera" ou "para", friz. corresponde a "Fernandes") e a abreviatura de item, a única não alfabética que surge nos textos, foi substituída pelo sinal arbitrário #. Para os sublinhados, já foi possível a imitação, que no entanto só foi praticada no caso dos sublinhados originais (os adventícios foram impostos na Inquisição pelos "conservadores" e já não pelos produtores dos documentos). Não se julgou legítimo reconstituir qualquer sinal ou palavra que a erosão tivesse camuflado mas cuja forma facilmente se pudesse depreender do contexto. Se a importância destes textos está no desrespeito que evidenciam pelas convenções gráficas, não pode haver segurança absoluta quanto à grafia no lugar agora lacunoso. Não se transcreveram os sinais não alfabéticos extra-textuais que tinham a particularidade de, respeitando códigos de conduta gráfica, assinalar o início e o fim do texto, o que acontece com as cruzes protocolares e os arabescos a seguir à assinatura.

NORMAS DE EDIÇÃO

Normalização de todas as grafias respeitando as normas portuguesas actuais, com as seguintes excepções: - conservação de formas arcaicas do vocabulário comum, transcritas, contudo, sem variação ortográfica (ex: per, pera, pola, bautizado, menhã, ouvisto, despois, lavandeira, assentada, agabar, escarnear); - conservação de formas arcaicas para os antropónimos, também transcritas sem variação ortográfica (ex: Bertolameu, Baltista, Caterina).

Conservação da pontuação.

Normalização da distribuição de maiúsculas e minúsculas (escrita das formas do vocabulário comum com minúscula e dos topónimos, antropónimos e formas do vocabulário religioso, como Deus, Diabo, Espírito Santo, com maiúscula). A primeira palavra inicial de cada parágrafo tem sempre letra maiúscula, apesar de frequentemente o parágrafo anterior não terminar em ponto final, fruto da conservação da pontuação original.

Desenvolvimento de todas as abreviaturas respeitando, quando possível, o desenvolvimento que o autor de cada original lhe daria (ex: pª desenvolve-se em pera e não em para sempre que no mesmo texto venha escrita, por extenso, a forma pera).

Recurso ao símbolo dos parêntesis rectos para indicar lacunas do original, supressões que resultem de dificuldade de decifração (nestes dois casos há reticências no interior dos parêntesis rectos) e para as formas conjecturadas que resultem de uma leitura duvidosa (neste caso a forma conjecturada é escrita entre os ditos parêntesis).

Eliminação das grafias repetidas.

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